Pinto de Andrade e Viriato na galeria dos heróis do MPLA

Direcção do MPLA
Direcção do MPLA

Fontes bem colocadas na direcção do partido no poder, MPLA, admitiram a O PAÍS estar em curso um processo de reencontro com algumas figuras ligadas ao seu percurso histórico mas que depois entraram para uma espécie de zona nebulosa.

A abordagem deste assunto, que terá sido proposto há já algum tempo por Lopo do Nascimento, só agora acolheu a aceitação dos sectores mais ortodoxos do MPLA que, em face dessa atitude de ruptura com as figuras do passado, não aceitaram há uns anos a ideia de atribuir a Viriato da Cruz o galardão do Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de literatura, segundo fontes deste jornal.

A primeira versão da proposta, a fazer fé nas fontes de O PAÍS, era bastante redutora, pelo que teve de ser estudada na profundidade até se chegar ao momento actual em que o epíteto de “traidor” com que era brindado Viriato da Cruz, pode finalmente ser relevado.
Segundo a fonte deste semanário, o acto simbólico da “reabilitação” das figuras de primeira linha do MPLA e justamente a criação na sua sede de uma galeria com as principais figuras da sua liderança desde a fundação até ao momento, a ser inaugurada no dia 10 de Dezembro na sua sede, à rua Ho Chi Min.

Figuras como Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade, duas personalidades falecidas na diáspora, têm um lugar garantido na galeria comemorativa dos 55 anos da fundação do MPLA, assim como Gentil Viana, entre outros.

A fonte lembrou que há sinais sintomáticos de o partido no poder pretender reconciliar-se com as suas figuras históricas da primeira hora, apontando como exemplo palpável a recente visita a Angola da esposa e filha de Mário Pinto de Andrade, Sara Maldoror e Henda Ducados, durante a qual foram recebidas na sede do MPLA, pelo secretário para as Relações Exteriores, Afonso VanDúnem “Mbinda”.
Pareceu ter transpirado muita cortesia desse encontro em que foram trocados documentos sobre a história do MPLA, com referências claras ao papel de Mário Pinto de Andrade. Sara Maldoror teve ainda o privilégio de visitar a terra natal do seu falecido marido, o Golungo-Alto, sempre acompanhada do secretário do MPLA para as Relações Exteriores, Afonso Van-Dúnem “Mbinda”.

“Fraccionistas” agastados com MPLA

Entretanto, um grupo de militantes do MPLA que se posicionam do lado da Fundação 27 de Maio e membros da auto-denominada União de Tendências do MPLA, dirigiu à nação e aos Presidentes da República e da Assembleia Nacional uma carta aberta a manifestar “o seu descontentamento pela não resolução do caso que se arrasta por mais de 30 anos”.
Segundo os subscritores da carta a que O PAÍS teve acesso, estão inocentados todos os sobreviventes da também chamada intentona do 27 de Maio de 1977, por considerarem que houve uma subversão dos postulados políticos assumidos durante um encontro magno realizado no ano anterior.
No documento intitulado “proposta de resolução/Dossier 27 de Maio”, os signatários reclamam por um processo semelhante ao que foi conduzido com a FLEC, UNITA e FNLA em nome da reconciliação nacional de todas as famílias angolanas.

Ex-governador de Luanda era o negociador do governo

Apesar dos onze anos de paz vividos em Angola constatam com alguma tristeza não se vislumbrarem sinais reais para “resolver este passivo”, não obstante José Maria dos Santos ter sido indicado interlocutor do governo, em Maio último, e que tinha começado a tratar do assunto junto da Fundação 27 de Maio.

“Para surpresa de todos nós, o interlocutor é exonerado das suas funções governativas que exercia e pelo que tudo indica com ele também foi desclassificado o que na altura se denominou “Acordo de trégua” com a Fundação 27 de Maio, não obstante muitos dos sobreviventes duvidarem da legitimidade do interlocutor, por razões várias”, lamentam no documento.

Perante a falência, propõem a constituição de uma comissão conjunta integrada pelos membros da Fundação 27 de Maio, do MPLA, Executivo e de partidos políticos representados ou não na Assembleia Nacional para tratar do “passivo 27 de Maio”.

Outras figuras com papel de relevo que trabalharam nos tribunais, polícia política, entre outras instituições com intervenção no processo, são igualmente convidadas a integrarem a Comissão Nacional de Resolução do Passivo do 27 de Maio a ser tutelada pela Assembleia Nacional que deverá apresentar um memorando de entendimento no prazo de 30 dias.

Esquerda democrática revolucionária

Os sobreviventes da Fundação 27 de Maio, muitos dos quais militam na irreconhecida União de Tendência do MPLA, assumem-se como uma reminiscência organizada e herdeira dos ideais políticos na base dos quais estiveram os desentendimentos da altura.

Embora a direcção do partido não os reconheça enquanto uma ala organizada dentro do MPLA, à luz dos seus estatutos, militantes mais ousados, entretanto, admitem que os participantes do lado de Nito Alves no movimento de 27 de Maio são militantes do partido no poder que já deveriam ter as reclamações atendidas.

Num apelo ao presidente da República e do MPLA os signatários lembram que “o momento está favorável para se pôr cobro este processo, porque todos nós intervenientes no mesmo, 33 anos passados, compreendemos que alguns de nós fomos vítimas do divisionismo interno e externo, e que por esta razão devemos fazer um esforço redobrado em prol da reconciliação da nação angolana duma forma geral”.

 

Eugénio Mateus

Fonte: O Pais

Fotografia: O Pais

 

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