O mundo não é plano

Poucos debates são tão propícios a clichés e frases feitas como a discussão sobre as causas e os efeitos da globalização. Aliás, dizer que o mundo está “cada vez mais globalizado” é repetir um dos maiores lugares-comuns das últimas décadas. O que é afinal a globalização?

Para uns, o fenómeno começou quando Vasco da Gama zarpou de Belém, em Lisboa, rumo às Índias. Para outros — o exemplo mais famoso é o jornalista americano Thomas Friedman —, o mundo é plano (título do seu best-seller que vendeu mais de 4 milhões de exemplares). Segundo o autor, nós estamos a viver uma nova era em que barreiras nacionais foram destruídas pela revolução tecnológica. Há também os pessimistas, que encaram a globalização como um negócio promovido pelas multinacionais (sobretudo americanas) que visam dominar o planeta (sobretudo os países pobres). De acordo com a Biblioteca do Congresso americano, mais de mil artigos ou estudos académicos sobre o tema são publicados anualmente no mundo inteiro. Mas a pergunta é: essas opiniões fazem sentido? O economista indiano Pankaj Ghemawat acha que não. Para ele, tudo não passa do que chama de “disparate global”.

Professor da escola de negócios do Iese, em Barcelona, Ghemawat dedica-se ao assunto há mais de uma década. No seu  novo livro, World 3.0, o economista  lança-se na audaciosa tarefa de desmentir todos aqueles que consideram a globalização como um facto consumado. Para ele, existe, no máximo, um mundo “semiglobalizado”. Como, pergunta ele, pode haver globalização se 90% dos habitantes da Terra jamais deixaram o país em que nasceram, se apenas 2% das ligações telefónicas são internacionais, se 95% das pessoas lêem apenas os media do seu país, se apenas 1% das cartas enviadas cruzam fronteiras e se menos de 1% das empresas americanas têm operações fora do país?

Ghemawat dedica mais de metade do livro a destruir as teses mais populares à volta da globalização. A vítima que ataca com um prazer mais evidente é o jornalista americano Thomas Friedman.

Ghemawat não chega a chamar-lhe idiota, mas pouco falta. “Friedman tem o direito de ter a sua própria opinião, mas não o direito de criar os seus próprios factos”, escreve. Após ler uma resenha pouco elogiosa sobre o seu best-seller escrita por Ghemawat, Friedman escreveu-lhe uma carta onde acusava o professor indiano de usar dados pouco precisos. “Pelo menos eu usei dados”, ripostou ele.

Para o autor de World 3.0, Friedman faz parte de uma corrente antiga de pensadores que viram na tecnologia o “destruidor” de barreiras que criariam uma nova ordem global: caminhos-de-ferro, telégrafo, telefone, aviação, internet. Outra vítima do livro é o grupo de pessoas que vêem na globalização uma conspiração das multinacionais americanas que querem dominar o mundo, tornando-o cada vez mais homogéneo (o que muitos apelidam de “McWorld”). Segundo Ghemawat, a concentração do mercado por parte das principais indústrias caiu nos últimos 60 anos. Para mais, diz o autor, as firmas americanas são cada vez menos relevantes. Finalmente, as multinacionais já entenderam que é um disparate encarar o mundo como algo plano. A McDonald’s serve hambúrgueres vegetarianos na Índia, a MTV transmite cinco orações por dia na Indonésia e os exemplos sucedem-se.
O mito da aldeia global

O principal problema associado à percepção de que a globalização é um facto consumado, diz Ghemawat, é que isso gera mais argumentos para os seus inimigos. Após a crise de 2008, os críticos da globalização e do livre comércio acentuaram os protestos. Outros argumentam que o importante agora é proteger os “empregos locais” e as “empresas nacionais” face à competição “desleal” de países como a China e a Índia. Para uns e outros, a solução é fechar, em vez de abrir, os mercados — ou seja, voltar atrás para os tempos em que o mundo era ainda menos “plano”.

Ghemawat defende a posição contrária: que a actual “semiglobalização” deveria acentuar-se. A abertura comercial e o fluxo mais livre de pessoas tornariam o mundo mais próspero, mais democrático e menos susceptível a guerras. Mas ao invés dos defensores da liberalização a qualquer custo, Ghemawat aponta os problemas que o avanço da globalização pode causar (como a abertura do mercado haitiano ao arroz americano que destruiu a produção local). Mas a visão para o futuro não é o ponto forte de World 3.0. O mérito está em não começar com o cliché do costume: “O mundo está cada vez mais globalizado”.

Fonte: Exame
Foto: Exame

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