O drama das mães detidas com bebés

Mães cuidam dos filhos até aos três anos
Mães cuidam dos filhos até aos três anos

Com apenas uma semana vida, o pequeno e calmo Edson mama com vontade, enquanto a sua mãe sorridente lhe acaricia o cabelo macio. Pedro, de quatro meses, sorri durante o passeio ao colo da mãe, num pátio cujas paredes estão pintadas de cor-de-rosa. Gina enche de beijos o filho que chora, por causa do susto que apanhou com o flash da máquina fotográfica. Mimos entre mães e os seus bebés, durante um dia tranquilo passado num casarão, onde ninguém gostaria de criar um filho: a Cadeia Feminina de Viana.
Ao longo do corredor ouve-se o choro dos pequenos. No cimo das portas estão estampados bonequinhos coloridos com dizeres como “Seja bem-vindo”. As paredes estão decoradas com desenhos de personagens infantis, como em qualquer creche.
Com 21 bebés, o internato da Cadeia de Viana é uma área sem celas nem grades. As portas dos compartimentos permanecem abertas, dando acesso à casa dos brinquedos, ao berçário, à cozinha e às áreas para apanhar sol, ao espaço para ver televisão e ouvir músicas.
No denominado “orfanato”, as crianças brincam e entendem-se no seu linguarejar infantil. Pedro é o mais brincalhão, fazendo com que todos se riam com as tropelias deste “camabuim”, a começar pelas educadoras de infância às quais chamam tias.
Quase todos os fins-de-semana, as detidas na Cadeia de Viana recebem visitas, mas as crianças são praticamente esquecidas, segundo disse ao Jornal de Angola Etelvina Santana, assessora prisional de segunda classe e uma espécie de madrinha das crianças, algumas das quais suas xarás. “Ficamos gratos pelo apoio que a sociedade presta à população prisional feminina, mas é importante que as crianças também sejam apoiadas. Muitas pessoas não sabem, mas estão aqui mais de 20 crianças com menos de três anos de idade”, afirma.
Os apoios esporádicos são insuficientes, por isso aproveita para pedir às pessoas de boa vontade, a ONG, instituições religiosas, grupos de solidariedade, que ajudem as crianças cujo lar é a penitenciária de Viana, com roupas, leite, papas e brinquedos.
“Precisamos de livros de histórias e abecedários para lhes ensinarmos as letras e os números. Apesar de estarem neste lugar, procuramos dar-lhes tudo de bom”, refere, acrescentado que muitas destas crianças, sem familiares para as receberem, ficam sob a tutela do Estado.

Até completarem os três anos de idade, as crianças recebem o carinho das mães e o apoio da instituição, mas depois disso têm de partir.

A dor da separação

Nos últimos dias com a filha, Maria, de 24 anos, sofreu ao ver os dias a escaparem-lhe até à chegada daquele em que a sua menina foi para longe e após o qual, muito provavelmente, nunca mais voltará a ouvir a sua voz a chamar-lhe mãe. “Tirar um filho dos braços de uma mãe é muito duro”, afirma amargurada.
Joana, de três anos, deixou-a há duas semanas para ir viver com a madrinha. A detida, que tem sido acompanhada de perto por uma psicóloga, diz que “não há tratamento que faça alguém aceitar a dor de perder um pedaço da vida”. Maria chora e diz que “o sorriso na hora da partida é o que me resta para guardar como lembrança e vai servir como motivo forte para nunca mais cometer qualquer acto que me ponha atrás das grades”.
A culpa e o arrependimento, reconhece, surgem geralmente à noite, acompanhados da insónia e das lágrimas. “Hoje, sei que foi uma ilusão fazer o que fiz. Hoje sei que a cadeia nunca foi nem será lugar para crianças”, afirma Fernanda, que está há mais de dois anos presa.
Gina, de 30 anos, mãe da pequena Carla, também tem um triste episódio para contar: “É triste quando procuramos alguém, nem que seja um parente mais distante ou uma amiga, para cuidar da criança quando estamos aqui. Todas somos gratas pela oportunidade de podermos presenciar os primeiros anos de vida dos nossos filhos e termos a possibilidade de as amamentar. Mas por melhor que seja essa fase, nada ameniza a hora de entrega do filho biológico. Isso faz as mães reclusas olharem com tristeza para os filhos, com medo pelo futuro. Dói, só de pensar.”
Apesar de parecer que falta muito tempo para ser separada da filha, Gina afirma que todas as detidas com filhos pensam dia e noite no assunto e acham que essa é a maior punição. “Todos os dias que deito a cabeça na almofada penso que o tempo está a passar muito depressa e que a qualquer momento me vão tirar quem me dá forças para continuar a viver.
Amo o meu filho e não quero separar-me dele. Apesar dos conselhos que recebemos dos profissionais aqui na cadeia, isso não me acalenta”, lamenta.

Apoio psicológico

Etelvina Santana explica que muito antes de ocorrer a separação física da mãe e do filho, as mulheres começam a ser preparadas psicologicamentes, pois reconhece que a situação é uma experiência angustiante para ambos e que pode facilmente conduzir a presidiária a uma depressão. “Também somos mães e sofremos com elas. Mas temos de reconhecer que existem normas e leis que têm de ser cumpridas”, acrescenta. A assessora lamenta, ainda, o facto destas mulheres serem deixadas à sua sorte pelas pessoas mais próximas.
“Muitas delas foram abandonadas pelas famílias e pelos maridos. Tudo isso conta, principalmente para as mães, porque não sabem se realmente vão poder ver novamente os seus filhos, devido ao comportamento dos familiares. Estar num presídio não é fácil. E a presença da família nos dias de visita minimiza o peso da pena.
É importante que os familiares estejam sempre presentes e dêem informações sobre os filhos destas mulheres”, conclui.

Yara Simão

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Paulo Mulaza

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