Murdoch, um escândalo de primeira página

Rupert Murdoch
Rupert Murdoch

Desde os 22 anos, quando herdou, devido à morte do pai, um jornal em Adelaide, na Austrália, que o controverso magnata dos media Rupert Murdoch se tornou conhecido pela sua determinação e obstinação. Aos 80 anos e em plena forma, o australiano naturalizado americano, Murdoch comanda hoje um dos mais poderosos e diversificados impérios dos media: a News Corporation (News Corp.). O grupo, sediado nos Estados Unidos, mas com uma presença importante na Europa e (em menor escala) na Ásia, factura mais de 32 mil milhões de dólares. Muitas das suas marcas falam por si: os canais de televisão Fox e Fox News,  o influente jornal económico Wall Street Journal e os londrinos Times e Sun.

No mês de Julho, numa aparente ruptura com a sua fama lendária de lutador implacável, Murdoch protagonizou dois “recuos” espectaculares, que semeiam dúvidas
— até há pouco tempo impensáveis — sobre o futuro do seu império. O primeiro foi a decisão de encerrar — no seguimento de um escândalo que atingiu proporções dantescas — um dos símbolos do seu grupo: o jornal News of the World. O tablóide com 168 anos, que saía ao domingo, foi a sua primeira aquisição na Inglaterra. Durante os dias de glória na década de 50, chegou a vender mais de 8 milhões de exemplares.

O segundo recuo foi uma consequência do primeiro: Murdoch teve de desistir de uma compra na qual se empenhara tenazmente. Ele estava à beira de adquirir, por 12 mil milhões de dólares, a totalidade das acções da BSkyB, a maior rede de televisão paga do Reino Unido, com mais de 10 milhões de assinantes. O escândalo obrigou Murdoch a continuar a ser apenas um sócio minoritário da BSkyB. “Ele está mais frágil do que nunca. Desta vez, eu não acredito que consiga dar a volta por cima”, diz Michael Wolff, autor do livro The Man Who Owns the News (“O homem que é o dono das notícias”, numa tradução livre).

Efeitos colaterais do escândalo

 

Foram escutadas mais de 4 mil pessoas. Aristocratas, artistas e desportistas eram os principais alvos

No epicentro da crise esteve o News of the World, ou simplesmente NoW. Mais especificamente, as tácticas usadas pelos jornalistas do tablóide para conseguir as notícias mais sensacionais, em geral associados à vida sexual de celebridades. O segredo do NoW — conforme revelou o diário The Guardian — estava na escuta de telemóveis. Calcula-se que cerca de 4 mil pessoas tenham sido objecto de escutas telefónicas ilícitas e criminosas. Os artistas, os membros da aristocracia real e os desportistas eram os principais alvos.

 

O pior, no entanto, ainda estava para vir. Os fleumáticos ingleses explodiram de raiva quando descobriram que até o telemóvel de uma estudante de 13 anos desaparecida, tinha sido violado. Velhas mensagens na caixa de correio foram apagadas por pessoas ao serviço do NoW para que houvesse espaço para novas. Por causa disso, a família da menina chegou a ter esperanças — falsas — de que ela estivesse viva. Telefones de parentes de soldados mortos no Afeganistão também foram espiados.

“Obrigado e adeus”, disse o NoW na sua última manchete. Um último editorial reconhecia que o jornal “perdera a sua razão de ser”. Numa tentativa infrutífera de despertar alguma simpatia, a News Corp. anunciou que todas as receitas da última edição iriam para organizações de caridade (que tiveram direito a anúncios gratuitos na edição de despedida do jornal).

O próprio Murdoch foi obrigado a deslocar-se da sua base empresarial nos Estados Unidos para Londres de modo a gerir a crise pessoalmente. Outra evidência da gravidade da situação foi o número de executivos que perderam o emprego devido ao escândalo, caso de Les Hinton, presidente do Dow Jones e publisher do Wall Street Journal, e a ex-todo-poderosa Rebekah Brooks, directora do NoW de 2000 a 2003. Os efeitos colaterais do escândalo chegaram inclusivamente ao célebre número 10 da Downing Street, a residência do primeiro-ministro britânico. A razão foi a descoberta de que o conservador David Cameron tinha escolhido para director de comunicação um antigo editor do NoW, Andy Coulson, que havia deixado o jornal logo após as primeiras denúncias. Coulson, obviamente, durou pouco no governo. Permaneceu, no entanto, o tempo suficiente para desgastar o primeiro-ministro Cameron e levantar questões incómodas: imprensa e políticos não estariam próximos de mais? A influência de Murdoch no governo britânico não seria excessiva?

Limites éticos da imprensa

 

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“OBRIGADO E ADEUS”:  Título da última edição do News of the World, fechado após 168 anos

A verdade é que desde Margaret Thatcher, nos anos 80, que os primeiros-ministros britânicos não escondiam o desejo de cair nas boas graças de Murdoch. Por ironia, eles acabaram por ser as suas principais vítimas. Há alguns anos, o antecessor de Cameron, Gordon Brown, foi surpreendido com um telefonema do tablóide The Sun para confirmar se o seu filho mais novo sofria de fibrose cística, uma doença rara que limita a expectativa de vida aos 32 anos. Brown afirma que ele e a mulher caíram “em lágrimas” perante o telefonema que tornaria público um assunto que a família desejava manter no âmbito privado.

 

O antigo governante levantou a suspeita de que o Sun — também de Murdoch — tivesse conseguido a informação à margem da lei. O jornal afirma que não: uma fonte teria avisado o jornalista sobre a doença. Brown aproveitou o escândalo para fazer duras declarações contra os jornais de Murdoch. A verdade é que ele se comportou de forma bem mais simpática para com o magnata australiano enquanto foi primeiro-ministro.

O escândalo relançou a discussão sobre o tema da maior transparência — e distância — no relacionamento entre os jornalistas e os políticos. Essa proximidade é vista como uma das causas da falta de limites éticos não apenas do NoW, mas também dos demais tablóides ingleses. O dilema é discutir a ética, ou a falta dela — sem ferir a liberdade de imprensa, uma das grandes tradições inglesas.

O tema já foi colocado na agenda do Parlamento, onde Murdoch se submeteu a um duro interrogatório durante o mês de Julho. O perigo é o desejo quase incontrolável de alguns políticos de impor controlos à imprensa. Diante de evidências de supostos crimes por parte da equipa de Murdoch, aumentou a tentação de aumentar a regulação dos media. É sempre salutar lembrar que, numa democracia, o jornalismo não pode ficar subserviente dos políticos.

O homem das missões impossíveis

 

A desconfiança que paira sobre Murdoch é incómoda para quem opera num ramo que vive da credibilidade

Outra questão importante é até que ponto os problemas na Inglaterra podem afectar a operação nos Estados Unidos? Tudo depende se os métodos utilizados pelos jornalistas do tablóide New York Post, da News Corp., forem parecidos com os dos colegas britânicos. Em Washington, o Congresso manifestou a intenção de analisar as actividades dos jornalistas que trabalham para Murdoch. E o FBI já decidiu abrir uma investigação para apurar, entre outras, a cobertura do 11 de Setembro. A verdade é que esta nuvem de desconfiança sobre Murdoch é extremamente incómoda para quem opera num ramo que vive de credibilidade — o jornalismo.

 

Muitos argumentam que o australiano é perito em ultrapassar dificuldades. Ao longo da sua vida ele tem conseguido desafiar o tempo de várias maneiras.  Não só casou pela terceira vez, já septuagenário, com uma chinesa 40 anos mais nova, como teve com ela dois filhos. Se seguir as pisadas da sua mãe, que viveu até aos 102 anos, Murdoch ainda tem um bom caminho pela frente. Mas o homem que chegou a Londres para lidar com a crise parecia denunciar fadiga e enfado. A sua mítica autoconfiança poderia ter sido abalada? Diz-se que quando a sua filha Elizabeth decidiu fazer o MBA em Stanford, o pai respondeu que era uma perda de tempo. “Se trabalhar comigo, vai aprender muito mais.” É difícil imaginar Murdoch abalado, ele que é o homem das missões impossíveis, como comprar um jornal tido como incomprável, o Wall Street Journal. Mas mesmo para alguém com ele o jornalismo criminoso do NoW é — definitivamen-
te — uma ameaça.

 

Fonte: Exame

Fotografia: Exame

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