História da gente vinda do arco-íris

Gente vinda do arco-íris
Gente vinda do arco-íris

Esta história aconteceu no chão dos hereros, ou helelos, há tantos anos que a Terra era uma menina acabada de nascer. Dimbas, Muchimbas, Chavícuas, Hacavonas, Cuvales, Cuanhocas e Gendelengos são filhos dos oma-zimbo, ventres sagrados das primeiras mulheres que deram à luz aqueles que constituíram o Clã do Sol (Ovakwaneiuva) e o Clã do Arco-Íris (Vakwatyikondyi).
As primeiras mulheres alimentaram os filhos com abundância de leite e eles cresceram com os rebanhos ou brandiam as zagaias. Gostaram tanto do seu chão que deram a si próprios o nome dos que resolveram ficar (Vaherera okukala). Os povos vizinhos preferiram chamar-lhes Herera, os que são alegres. Mas eles também são poetas e trovadores.
Em Capangombe, terra dos Cuvales, os pastores fizeram este poema ao monte que vigia a vida nas planícies: Omphunda y Epale/ Ondundu ya tyongolundu/ yatala omapia/yakukolovela oyongundya. Para eles, “o monte Epale/morro pedregoso e alcantilado/ fixa os olhos nos campos/ contempla lá do alto as camponesas”.
Um dia chegou a guerra ao paraíso dos que foram gerados pelos ventres sagrados das primeiras mães. No Sul, o bravo rei Maharero resistiu mas não evitou a submissão ao poderoso rei do Jau. Os trovadores hereros choraram então trovas amargas: Olungu yapia n’omaholo/ yalungwina n’omatemba./ Hatyilisilo/ Hatyitomisa tya ngombe./In’olutelo n’ovita/ In’ohole n’omanyama. “O Lungo ardeu com os tarros de leite/foi queimado com as travessas da comida./ Não é lugar de pastorícia/ nem de engorda de gado./ Tem nele a maldição da guerra/ e a predilecção pelas feras”.
Durante muitos anos a guerra matou a alegria e o boi do coração: ongombe yokulikwambela. Mas os que brandiam as zagaias e sabiam cuidar das vacas cobertas conquistaram de novo a liberdade e com ela regressou a alegria entre os do Clã do Sol e os do Clã do Arco-Íris.
O trovador Mutaeni quis marcar com música e poesia a reconquista da esperança nas planícies desérticas de Calupanda: olha os nossos pássaros/ que esvoaçam pairando/ ao irem pousar em bando. “Tala odondila detu/ dituka ondyendye/ tyimadikawilila omuyala!”
Tyitunda era uma bela menina casadoira quando regressaram os dias da liberdade. Junto ao tronco sofrido de uma omu-ti cortaram-lhe as argolas de madeira dos braços e dar pernas. Mais tarde foi conduzida pela Nkhandie para a aldeia onde foi recebida pela mãe velha que deu à luz a sua mãe. Durante a noite, as raparigas de Capangombe cantavam o mais belo cântico da iniciação: mba mwalala,imukeni!/Omphembayalia ozondele/ otyinkhula tyalia ovatalume./ Owatali vomeho ovana vovihangepole/ ozomphindi delisa/ omipolo vyelisa kana! “Se estais a dormir, levantai-vos!/ O boi branco comeu as crias/ o boi vermelho devorou os homens burros./ As que contemplais são meninas bem formadas/ suas pernas bem torneadas/ as suas feições são tão belas!”

Tyitunda casou com um jovem pastor e deste casamento nasceram os Cuvales, que percorreram alegres aquele mundo imenso que vai dos planaltos da Cahama, Otchinjau e Chitado até ao longínquo bico do Caluheque.
Hoje os descendentes de Tyitunda apascentam o gado no Camucuio, Caitou, Capangombe e Bibala. Os seus olhos conhecem todas as tocas das montanhas do Hambo. O oma-zimbo de Tyitunda é tão sagrado como a liberdade do tempo, seja de dia ou de noite. E tem a magia de um povo que nasceu do ventre do arco-íris num dia prodigioso de sol e chuva.

 

Seke Ia Bindo

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Casimiro José

DEIXE UMA RESPOSTA