“Galo negro” pode passar bem sem Abel

Galo negro pode passar bem sem Abel
Galo negro pode passar bem sem Abel

A UNITA minimiza as consequências de uma eventual saída de Abel Chivukuvuku das suas fileiras para fundar o seu partido e concorrer às eleições presidenciais que tanto almeja na sua carreira política.

O porta-voz do maior partido na oposição, Alcides Sakala, disse a O PAÍS que a perda do seu líder em combate em Fevereiro de 2002 foi o momento de maior impacto sobre as hostes do partido desde a sua fundação.
Por isso, no seu entender, a hipotética erosão de quadros em alinhamento com Chivukuvuku, de quem se diz gozar de muita simpatia nas hostes juvenis do partido, parece não preocupar a atual direção do partido do “galo negro”.

“Nós pensamos que não, sabe que a UNITA hoje transformou-se numa cultura. A cultura política da UNITA se consolida ao longo do tempo, ela já viveu crises mais profundas. Estamos lembrados da saída de Tony da Costa Fernandes, o cofundador que, por opção própria, abandonou a UNITA em 1992, temos o Nzau Puna que até era uma instituição, ele não era apenas secretário-geral, as pessoas chamavam-lhe o secretário-geral”, lembrou o político.

Superada a situação criada com a morte de Jonas Savimbi, Sakala disse crer que não haverá já qualquer razão suficientemente forte para transformar o seu partido numa manta de retalhos.
Afirmou que o segredo de toda esta fortaleza do partido reside na força dos valores ideológicos que a UNITA defende no panorama político nacional, admitindo que “unidos seremos mais fortes, mas quem por opção pessoal decidir seguir outro caminho poderá fazê-lo, mas isso não afectará os princípios estruturantes da organização”.
Evoca a dialéctica para lembrar que por cada crise em que o partido venha a ser mergulhado ele sairá mais fortalecido, ganhando mais pujança para alcançar os seus objectivos.

Do balanço feito dos partidos políticos com vocação de poder, como afirmou ser o caso da UNITA, os que perdem as suas lideranças são aqueles que continuam com a mesma perspectiva.
Alcides Sakala disse que no termo da guerra em Angola, a UNITA adaptou-se mais rapidamente à conjuntura atual, propondo mesmo reformas numa perspectivas mais socializante para que se resolvam os problemas, enquanto o seu rival se fecha cada vez mais numa redoma, acrescentou.

“O MPLA comporta-se como vitorioso e nesta aproximação dos problemas vai-se isolando cada vez mais. Hoje é uma classe muito rica e há uma maioria que não tem mesmo nada no nosso país”, disse o político que aludiu ao movimento de contestação social abraçado por estudantes universitários angolanos.

Alcides Sakala falou igualmente sobre o que é visto como a “matriz ideológica” do seu partido, o conhecido “Projeto de Muangai”, acerca do qual são conhecidos desabafos de Abel Chivukuvuku, segundo os quais estariam desajustados do atual contexto político.

O desencanto de Chivukuvuku pela persistência no discurso de Muangai induzia mesmo ideias de uma refundação deste partido com impacto profundo nos símbolos da sua génese, mas o porta-voz desmistifica toda a leitura negativa acerca do “Projeto Muangai”.
“Muangai é uma pequena localidade nas margens dos rios Luvuei e Lutuei, mas foi diabo lizada pelo MPLA no quadro da guerra. A UNITA hoje adaptou-se às novas circunstâncias, já não é um partido armado”, esclareceu.

Rematou que em breves palavras, a essência de Muangai assenta no aprofundamento da democracia no nosso país, consubstanciada na transparência, alternância, distribuição justa da riqueza. Em resumo, aquilo que ajude a resolver os problemas sociais no país. Tendo vivido muito tempo no interior da UNITA, Abel Chivukuvuku não devia temer este aspecto. Para o porta-voz da UNITA, é impensável que o local onde o partido foi fundado seja mudado, “não é possível”, rematou.

 

Eugénio Mateus

Fonte: O Pais
Fotografia: O Pais

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