Exposição proporcionou troca de experiência

Criatividade dos artesãos angolanos foi reconhecida pelos visitantes da feira
Criatividade dos artesãos angolanos foi reconhecida pelos visitantes da feira

Durante dois dias, artesãos angolanos oriundos de diversas províncias do país, tiveram a oportunidade de expor as suas obras na Praça da Independência, em Luanda, no âmbito da II Feira Nacional do Artesanato, que decorreu entre os dias 7 e 9 de Outubro. Organizada pelo Ministério da Cultura em parceria com os diferentes governos provinciais, além da exposição e venda das peças, o encontro proporcionou também a troca de experiências entre artesãos.
A força aliada à diversidade do seu mosaico cultural colocou o quiosque da representação de Malange entre os mais requisitados dos mais de dez mil visitantes que entre sexta-feira e domingo acorreram ao Largo da Independência. Do conjunto de 54 peças expostas, o reco-reco, o batuque, as missangas e as sandálias “jamundongo”, marcaram as preferências, mas o principal cartão de visita era mesmo a marimba, instrumento musical típico daquela região e que é feito de bambu.
Em conversa com o Jornal de Angola, Kito Kanjimbange, artesão da terra da Palanca Negra, manifestou-se convicto que a feira constitui um importante passo para elevar a valorização do artesanato feito em Angola.
Artesão há sete anos, profissão que abraçou por influência de um amigo, queixa-se apenas das dificuldades que os artesãos encontram em Malange para desenvolver a sua actividade, devido ao elevado custo da matéria-prima e à falta de espaços condignos para exporem o produto final.
“Não é fácil ser artesão, são tantas as dificuldades que enfrentamos. Só estamos de pé devido à dedicação e força de vontade da nossa parte, mas é bom realçar que actividades destas nos dão forças para continuar”, explicou.
Kito Kanjimbange, que afirmou existir muito interesse da juventude pela profissão de artesão, vê com bons olhos a realização de mais encontros desta natureza, por considerar que eles facilitam a troca de experiências entre os profissionais do artesanato das diferentes províncias do país.
“A par das vendas o que, eventualmente, aprendemos com um colega pode ajudar a melhorar aspectos que à partida pensávamos serem irrelevantes”, referiu.

O mesmo pensamento é partilhado por João Pereira que, em companhia de mais três colegas, veio a Luanda para representar a província do Kwanza-Norte. Na bagagem trouxeram cerca de 115 peças de artesanato muito comum naquela região. A garrafeira feita de pau, o cinzeiro de argila, cabaças, cesto de rama de palmeira e o jogo de sofá de junco não foram esquecidos.
João Pereira deseja que a realização da feira seja de carácter anual, solicitando, no entanto, mais apoios do Estado e de entidades privadas para a  compra de material para a concepção das obras.
“O preço do material que usamos, como a madeira e os bambus, é alto. Por exemplo, um tronco de pau-preto custa seis mil kwanzas e saem umas três peças, o que não compensa”, lamenta.

Criação de novas associações

O secretário da Associação Provincial dos Artesãos de Luanda encara como fundamental a criação de associações para colmatar as dificuldades que os artesãos enfrentam diariamente.
Nlandu Nkazi, que participou numa reunião com os artesãos de todas as províncias para passar a mensagem e a experiência das actividades que realizam dentro e fora do país, e aconselhou os colegas a levaram a mensagem aos restantes que se encontram nas províncias.
“Pretendemos criar uma coligação das associações provinciais ou cooperativas com a Associação de Luanda, para que os artesãos não fiquem desinformandos e participem nas actividades realizadas nesta cidade”, disse.
Nlandu Nkazi explicou que os profissionais do artesanato têm encontrado obstáculos para o escoamento das peças e apoios para participar em actividades no estrangeiro e notou igualmente que existe um prémio de cultura e arte avaliado em 35 mil dólares, mas onde os artesãos nunca estão incluídos.
A feira, apesar de privilegiar o artesanato, esteve aberta a outras vertentes da arte e o artista plástico Gustavo Carneiro é prova disso. Os seus 6 quadros de pintura juntaram-se às demais peças, num total de 48, podiam ser vistas no quiosque do Namibe.
No mundo da arte há 26 anos, queixa-se das dificuldades por que passam os criadores locais para adquirirem matéria-prima. Ele que é  professor de artes plásticas no Magistério Primário no Namibe realça que a vertente da formação tem sido outra das suas preocupações, e manifestou a sua satisfação com o tímido, mas crescente interesse dos jovens pelas belas artes. “Durante anos, o nosso país passou por conflitos que levaram ao desinteresse de alguns aspectos culturais, mas agora estamos em paz e naturalmente, eles têm conquistado o seu espaço”, sublinhou.

Promoção contínua

A promoção contínua de feiras de artesanato contribui para o aumento do rendimento e, consequentemente, para o fim da pobreza dos profissionais que produzem obras artesanais, considerou a ministra da Cultura.
Para Rosa Cruz e Silva, feiras do género são fundamentais para a divulgação e venda das peças dos artesãos, que encontram dificuldades no mercado para  comercializar as suas produções.
A ministra da Cultura, que reconhece existirem ainda muitas dificuldades para a recolha de material e para a própria produção, acredita que as mesmas serão superadas e os seus criadores, sejam eles das escolas tradicionais ou dos espaços urbanos, vão encontrar nesses encontros uma forma de dar a conhecer ao público todo o seu talento e a sua força criativa.

Qualidade reconhecida

A qualidade do artesanato angolano é dos melhores que existem no mundo, reconheceu o embaixador da Argélia acreditado em Angola. Kamel Boughaba, que testemunhou a abertura da feira nacional do artesanato, é da opinião que a iniciativa seja alargada a todo o território nacional e, mais do que isso, defende o intercâmbio entre os artesãos africanos.
O diplomata, que elogiou a organização por ter conseguido reunir num único espaço um conjunto de peças que representam o produto artesanal concebido pelos criadores angolanos, acrescentou que a iniciativa possibilitará um melhor conhecimento da evolução histórica do artesanato angolano.
Na generalidade, as peças retratam os hábitos e costumes do povo angolano e Kamel Boughaba considerou positiva a criação de condições de selagem das peças, para que não surjam embaraços caso os compradores decidam levá-las para o exterior do país.

Relançamento nacional

O coordenador da feira, António Fonseca, disse ao Jornal de Angola que é ideia do Ministério da Cultura desenvolver o projecto anualmente, com vista a fomentar, através de exposições, oficinas demonstrativas e comercialização dos trabalhos dos artesãos. Destacou que o outro propósito é criar um maior intercâmbio cultural entre os artesãos e o público.
“O objectivo do Executivo é o relançamento do artesanato nacional, para gerar empregos, reduzir a pobreza e debater o seu lugar na economia angolana”, realçou.
A feira proporciona um melhor conhecimento do estado actual do artesanato em Angola, a sua evolução artística e adaptação às condições da vida moderna, referiu.
“Será um espaço para os artesãos demonstrarem o resultado da sua actividade, tanto de forma individual como colectiva”, disse.
António Fonseca apontou também, entre os objectivos, a preservação e valorização das escolas artísticas tradicionais, reintrodução do hábito do consumo do artesanato no quotidiano das pessoas, o apoio ao turismo cultural e a transformação do artesanato numa fonte de rendimento para a melhoria de vida das comunidades.
Na feira estiveram inscritas várias categorias artísticas, como a cerâmica, gravura, escultura, tecelagem, pintura, gravura, vestuário e calçado, artigos de beleza e adorno, cosméticos e outras actividades com ligação ao artesanato.

Adalberto Ceita

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Paulo Mulaza

DEIXE UMA RESPOSTA