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“Devemos trabalhar mais para acabar com a pobreza”
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“Devemos trabalhar mais para acabar com a pobreza”

Bispo reformado diz que sendo o Islamismo uma das religiões "vivas" do mundo não vê por que razão não ter lugar em Angola

O bispo emérito da Igreja Metodista Unida, Emílio de Carvalho, comemorou no passado dia 3 de Agosto o seu 78º aniversário natalício. O Jornal de Angola aproveitou a ocasião para lhe fazer uma entrevista. Falámos sobre o fenómeno religioso em Angola e questões sociais e políticas.

Jornal de Angola – Senhor bispo, o que é a Reforma Protestante?

Bispo Emílio de Carvalho – A Reforma Protestante aconteceu no século XVI no Cristianismo ocidental e foi o culminar de um movimento de descontentamento, com um apelo ao regresso às Escrituras e contra as práticas e crenças da Igreja medieval.  A Reforma começou na Alemanha, em 1517, sob a liderança de Martinho Lutero e o concurso de muitos outros estudiosos, pregadores e organizadores competentes.

JA – Qual foi o ponto de partida?



BEC –
 O ponto de partida foi a deterioração da situação na Igreja, devido aos abusos relacionados com a penitência e a prática das indulgências, compra e venda de perdão de pecados. De entre os eminentes reformadores, para além de Martinho Lutero, contavam-se João Calvino, Hulderich Zwinglio, Henrique Bullinger. A afirmação da autoridade da Bíblia, a doutrina da justificação pela fé e pela graça, enraizada na doutrina do apóstolo Paulo, o sacerdócio de todos os cristãos e o canto congregacional, fizeram da Reforma o centro de uma teologia enraizada na Bíblia.

JA – Como evoluiu a Reforma?

BEC – A Reforma evoluiu de tal maneira que se espalhou por outros países europeus através de desenvolvimentos teológicos, sociais e litúrgicos, que deram ao Protestantismo o seu carácter diversificado.

JA –  A Europa ficou dividida entre católicos e protestantes?

BEC – A Europa ficou dividida entre católicos e protestantes de várias tendências, e em dezenas de estados e protectorados, alguns deles de carácter tribal e regional.

JA – O que é o Protestantismo?

BEC – O termo protestante foi aplicado nos círculos políticos aos signatários luteranos do Protesto apresentado à Dieta (assembleia legislativa) de Spira no dia 19 de Abril de 1529, contra uma decisão de anulação da Dieta de 1526, pela qual os governos de cada um dos Estados deviam regular os assuntos religiosos. O termo “protestante” aplicou-se depois aos luteranos em geral e, finalmente, a todos os aderentes da Reforma, incluindo aos anglicanos e a outros grupos de esquerda. Poucos ramos do protestantismo adoptaram a designação de Protestante aos seus títulos.

JA – Porque surgiram vários ramos?

BEC – Para muitos, a designação de protestante tinha conotações de controvérsia e de contraste com o Catolicismo Romano. O princípio da separação da Igreja do Estado, o da tolerância religiosa, o estudo da crítica bíblica e o movimento missionário, foram algumas da características do Protestantismo. Jaroslav Pelikan afirmou: o Protestantismo contém em si o gérmen de sua própria divisão.
O facto de se ter desenvencilhado das práticas do catolicismo romano e de ter dado aos seus adeptos uma visão crítica da religião e da Bíblia, vem gerando divisões estruturais no seu seio e que deram lugar a centenas de denominações pelas quais o Protestantismo é hoje conhecido. Eu pergunto se Cristo está assim tão dividido.

JA – A Reforma Protestante foi positiva para o desenvolvimento da humanidade?

BEC – Em certa medida, a Reforma Protestante foi positiva, pois desenvencilhou a religião do dogma e concretizou o princípio da liberdade religiosa para o indivíduo e para a sociedade.

JA – Porque razão só no último quartel do século XIX as confissões protestantes começaram a instalar-se em Angola?

BEC – No último quartel do século XIX há uma expansão sem igual do Protestantismo em todo o mundo. Em Angola, os movimentos missionários valeram-se dos acordos da Conferência de Berlim de 26 de Fevereiro de 1885, pelas quais se processou a partilha de África pelas potências colonialistas europeias.

JA –  Em que aspecto o Acordo de Berlim permitiu a expansão do protestantismo em Angola?

BEC – A Conferência de Berlim garantiu a liberdade de consciência e a tolerância religiosa, reconhecendo expressamente a necessidade das missões religiosas para o desenvolvimento da civilização ocidental em África. Portugal, que foi um dos signatários do tratado de Berlim e de outros tratados internacionais, ficou com a margem esquerda do rio Congo, tendo aberto as suas portas à entrada das missões religiosas não católicas. Foi ao abrigo desse tratado de Berlim que o Metodismo chegou a Angola em 18 de Março de 1885.

JA – Qual foi o papel das Missões Protestantes no desenvolvimento do povo angolano na era colonial?

BEC – As missões protestantes desempenharam um papel preponderante no desenvolvimento espiritual, intelectual e moral do povo angolano. Atrevo-me a dizer que se não fosse a intervenção do protestantismo em Angola, a luta de libertação de Angola do jugo colonial não se tinha desenvolvido nos moldes em que se desenvolveu. Na era colonial, as igrejas protestantes deram ao povo subsídios valiosos que o capacitaram a levar a cabo uma luta de libertação completa do jugo colonial.

JA  – E após a independência?

BEC – O mesmo aconteceu depois da independência quando, quebradas as amarras do colonialismo, o Protestantismo não fez mais do que firmar-se.

JA – O que é Missão e o que é Igreja?

BEC – A Igreja tem uma Missão. A igreja é uma congregação de fiéis, na qual se prega a pura Palavra de Deus e se administram devidamente os Sacramentos. Tem a missão suprema de evangelizar, de pregar, de ensinar, de assistir e de aconselhar.

JA – Como surgiu a Igreja Metodista Unida?

BEC – A Igreja Metodista Unida começou na Inglaterra em 1739, passou para a América e chegou a Angola em 1885, com o Bispo William Taylor e a sua caravana de missionários. Foi para todos os Continentes. A sua vocação era apenas uma: implantar a igreja, a escola, os serviços médicos e a agricultura.

JA – Foi assim que se implantou em Angola?

BEC – A acção do Metodismo em Angola desenvolveu-se em torno desses quatro objectivos mas o objectivo último é a dignificação do homem e da mulher. Tudo quanto o Metodismo realizou, visou a elevação espiritual, material e moral do povo. Tanto mais que, quando estalou a luta de libertação em Angola, o Metodismo estava bem preparado para arcar com todas as responsabilidade que a sua actividade quase secular lhe impusera.

JA – Que outras igrejas comungam com a Igreja Metodista Unida?

BEC – A Igreja Metodista Unida em Angola é fundadora do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), em 1977.
Com outros membros desenvolve e estreita a cooperação nos campos da evangelização, da formação pastoral (educação teológica), do serviço cristão, da representação das Igrejas membros em assuntos de interesse geral, garante e afirma a unidade das igrejas evangélicas (protestantes) em Angola, tem servido de elo de ligação entre os seus membros constituintes e outras organizações nacionais e internacionais cristãs e de intérprete entre os seus membros e o Estado Angolano, sempre que é necessário.
Essa última cláusula vem sendo exercida por uma entidade criada posteriormente e que engloba outras instituições não membros do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola, no diálogo com as autoridades governamentais.

JA – As autoridades coloniais temiam muito particularmente a Igreja Metodista Unida, porquê?

BEC – A Igreja Metodista Unida foi fortemente visada e reprimida pelo colonialismo quando começou a luta armada de libertação nacional em 1961, porque os seus princípios de doutrina e vida iam contra os objectivos da política colonial portuguesa e porque os portugueses desconfiavam da postura do Metodismo. A luta armada foi iniciada nas áreas controladas pela Igreja Metodista Unida onde mais de 80 por cento dos seus pastores e milhares de metodistas foram presos, deportados ou mortos depois de 1961. Os colonos temiam a Igreja Metodista, pelo seu ensino libertador, pela coragem dos seus dirigentes e pela astúcia dos seus membros. Essas qualidades só poderiam ser reprimidas, nunca aceites.

JA – Que memória tem da repressão colonial?

BEC – A repressão colonial foi terrível. Para além de serem feitos prisioneiros e lançados nas masmorras, pastores e leigos, homens e mulheres, foram mortos, deportados, maltratados e vituperados por Angola fora. Muitos jovens foram mortos ou presos quando fugiam da fúria do colonialismo. O número de heróis da fé que deram as suas vidas pela Independência de Angola foi infinito.

JA – Aos 39 anos foi eleito bispo da Igreja Metodista Unida em Angola, no ano de 1972. Como evoluiu o clero africano?

BEC – O clero africano no Metodismo angolano sempre esteve ao lado dos missionários, seus companheiros de trabalho, e do povo que se mantinha fiel ao ideal da libertação. O clero nativo e os leigos firmaram-se porque estavam envolvidos numa causa nobre que era servir de veículo na obtenção de um prémio justo para o seu povo.

JA – Após a Independência Nacional irromperam em Angola centenas de igrejas e seitas religiosas. Como se explica este fenómeno entre nós?

BE – O surgimento de milhares de congregações religiosas em Angola explica-se pelo facto do Protestantismo conter em si o gérmen da sua própria divisão e pelo descontrolo do fenómeno religioso no país. A posição da Igreja Metodista em Angola foi, desde longe, definida. O Estado deve apenas exigir o registo das congregações religiosas e deixar que elas se instalem no país. Até agora tem sido impossível controlar o fenómeno.
Mesmo que se combata o fenómeno da corrupção no nosso país, haverá sempre pessoas que se deixam corromper, permitindo que essas seitas ou congregações religiosas proliferem.

JA – E sobre o Islamismo, que se propaga aceleradamente?

BEC – De acordo com a Constituição da República de Angola, no seu Artigo 41º, a liberdade de consciência, de crença e de culto é inviolável. Ninguém pode ser privado dos seus direitos, perseguido ou isento de obrigações por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. Nos termos da lei, é garantido o direito à objecção de consciência. A Constituição diz mais: a República de Angola é um Estado laico, havendo separação entre o Estado e as igrejas. Nesse âmbito, e sendo o Islamismo uma das religiões “vivas” do mundo, não vejo por que razão não teria lugar em Angola. As outras comunidades religiosas é que devem intensificar a sua evangelização, para não se deixarem ultrapassar por grupos de mais recente instalação no nosso país.

JA – São conhecidas práticas delituosas de muitas igrejas e seitas. Como vê esta situação?

BEC – Essa questão deve ser posta ao Estado.

JA – Que organismos de cúpula representam as igrejas protestantes, ditas evangélicas?

BEC – A Igreja Católica Romana tem o Vaticano. Os Protestantes não têm uma organização de cúpula em comum. Cada igreja protestante tem o seu Vaticano, representa-se a si mesma. Existem conselhos de igrejas, mas estes não representam os membros em assuntos doutrinários, éticos ou sociais. São apenas organismos de cooperação de igrejas, que traçam as linhas em que vão cooperar.
O Conselho de Igrejas Cristãs em Angola, a Conferência das Igrejas de Toda a África e o Conselho Mundial de Igrejas são apenas organismos de cooperação. Tudo isso explica o carácter democrático do Protestantismo.

JA – A Igreja Católica tem assento no Conselho Mundial de Igrejas?

BEC – A Igreja Católica Romana tem estatuto de observadora no Conselho Mundial de Igrejas.

JA – Há critérios exigíveis para uma denominação protestante se filiar nesses organismos?

BEC – O critério básico é que cada igreja que deseje ser membro dessas instituições ecuménicas reconheça Jesus Cristo como Salvador e Senhor e que reconheça a Bíblia como regra de fé e de prática. O Conselho Mundial de Igrejas define-se como uma comunidade ao nível mundial de 340 igrejas que buscam a unidade, um testemunho comum e serviço cristão.

JA – Há liberdade religiosa em Angola?

BEC – A liberdade religiosa é um facto em Angola. O Estado garante a inviolabilidade da liberdade de consciência, de crença religiosa e de culto. A laicidade do Estado manifesta-se no princípio da separação entre o Estado e as Igrejas. Temos liberdade religiosa em Angola… até demais. Convém que a aproveitemos da melhor maneira possível!

JA – Qual é a sua opinião, como cidadão e clérigo, sobre as desigualdades sociais?

BEC – Pela idade e experiência que tenho, posso afirmar, sem medo de errar, que conheci o colonialismo em todas as suas formas e facetas e pior do que isso é impossível. Claro que hoje existem ainda desigualdades e injustiças sociais em Angola. Ninguém pode negar essa realidade. Se assim acontecesse estávamos a mentir a nós mesmos e ao mundo. Nunca poderemos afirmar, com toda a certeza, que a independência deu a todos os angolanos a oportunidade de ficarem ricos. Mas a verdade é que existem também desigualdades e injustiças em todos os países. Prova disso é a pobreza no mundo!

JA – A pobreza e a injustiça são males mundiais?

BEC – Isso é evidente. Mas infelizmente os advogados dos direitos humanos são, na maior parte das vezes, os que vivem bem e que estão sempre a reclamar quando alguém interfere nos seus interesses. Em Angola, umas pessoas sãos ricas, outras são remediadas, outras ainda são pobres e existem ainda as que comem o pão da miséria. As desigualdades sociais existirão sempre em Angola e no mundo. A sociedade sem classes, que desejávamos para Angola, caiu no buraco na altura em que adoptámos o capitalismo como sistema económico. Pois mesmo no tempo do socialismo, havia angolanos que tinham tudo e angolanos que nada tinham! Agora, precisamos, todos, de trabalhar para que não haja mais pobreza, espiritual e material, em Angola!

JA – Como vê hoje os musseques  e as vicissitudes no mundo rural?

BEC – Conheço bem os musseques das cidades, a vida rural e as vicissitudes que todos enfrentamos. Quem disse que os musseques iam   desaparecer da noite para o dia? Não conhecemos musseques noutras cidades do mundo e de África muito mais antigos que os de Angola? As nossas cidades foram invadidas por ondas de refugiados e deslocados das guerras que assolaram o solo pátrio durante quase 40 anos! Quem foge das guerras não pode organizar-se. Angola só está em condições de melhorar o nível de vida do seu povo há nove ou dez anos! É necessário que o povo angolano compreenda os obstáculos que se opuseram à realização de tarefas de ordenamento. Quando as habitações dos planos das centralidades e de outros agregados populacionais estiverem concluídos, e realizadas outras tarefas, talvez possa dar-lhe outra entrevista.

JA – A acção do Executivo é positiva?

BEC – É positiva e está à vista de quem quer ver: escolas, hospitais, creches, pontes, estradas, caminhos-de-ferro, aeroportos modernos, novas unidades hoteleiras, novas centralidades, tudo isso, mostra que o governo não está a dormir. É quem mais se interessa em solucionar os problemas da população. Deixo aos nossos governantes uma palavra de alento: continuem a trilhar neste bom caminho, não dêem ouvidos aos pessimistas e derrotistas, olhem mais pelo próximo e dêem aos angolanos o que eles merecem, paz, pão e felicidade.

JA – No próximo ano há eleições legislativas e presidenciais. Tem opinião sobre este acontecimento?

BEC – O processo eleitoral em Angola, com o andar dos tempos, vai tornar-se cada vez mais um lugar-comum. Em 2012, mais uma vez, o povo angolano será chamado às urnas para eleger o seu presidente e os seus representantes no parlamento. É isso o que todos desejamos. A democracia está em marcha!

JA – Que mensagem quer deixar aos angolanos?

BEC – Que acreditem mais. Que acreditem em Deus, que sempre esteve ao nosso lado. Que acreditem em si mesmos e nas capacidades que todos temos de edificar um país próspero. Que acreditem naqueles que vão eleger para a concretização dos objectivos traçados que visam o nosso desenvolvimento integral como um povo.

 

MM de Brito Júnior

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Rogério Tuti

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