“Deus é Pai” ampara muitas crianças carentes

Os menores para além de aprenderem a ler e escrever aperfeiçoam as técnicas de produção de alimentos no campo criado no centro
Os menores para além de aprenderem a ler e escrever aperfeiçoam as técnicas de produção de alimentos no campo criado no centro

Suku Ondjali (Deus é Pai, na língua nacional umbundo) é o emblemático nome de um lar comunitário localizado na sede do município da Caála (Huambo), que alberga 56 crianças órfãs e abandonadas.
As madres da congregação Mensageiras do Amor Divino transformaram-se em verdadeiras mães das crianças ali acolhidas, partilhando com as mesmas as vicissitudes que o destino traçou.
Cada uma destas crianças tem uma história desconsolada e terrível. Ricardo Santos, actualmente com 11 anos, foi abandonado no hospital local pelos pais, quando tinha 3 anos e padecia de tuberculose. Outras três crianças foram abandonadas pela mãe, que um dia sumiu de casa depois de ter dito aos filhos que ia comprar pão.
O pai decidiu, então, levar as crianças para o lar, arranjou outra mulher e desapareceu.
Uma outra criança, agora com 14 anos, foi recolhida pela direcção do lar depois da mãe ter morrido de parto e de ninguém ter aparecido a reclamá-la. Uma história semelhante à de uma menina de 12 anos, que foi encontrada, com poucos meses de vida, a tentar mamar no seio da mãe, depois de esta ter sido mortalmente atingida quando tentava fugir à guerra. Outras foram abandonadas simplesmente porque os familiares não as queriam, crianças encontradas ao relento, no mato, desprezadas pelos pais por as madrastas não as quererem, ou filhas de deficientes.
No Suku Ondjali cada petiz tem na sua origem uma história triste. Um jovem que tem agora 17 anos e boa saúde, foi entregue à irmã Olinda para que esta lhe organizasse o enterro, depois de ter sido encontrado, com pouco mais de um mês, aparentemente morto e com o corpo coberto por formigas.Pouco depois de receber o bebé, a madre Olinda percebeu que ele apresentava pequenos sinais vitais e foi a correr procurar os cuidados dos Médicos Sem Fronteiras.
Depois de recuperar, a criança foi acolhida pelo orfanato.

Auto-sustento

Visivelmente, o centro necessita de obras de restauro e as crianças de mais roupa e entretimento.
Porém, para a madre Bernarda Inácia Cahenda, a prioridade imediata do centro é a substituição das actuais camas e colchões onde os meninos dormem.
Florinei Lima Cardoso tornou-se voluntária no lar comunitário, depois do primeiro encontro que manteve com a madre Olívia Maria Correia, conhecida por “Irmã Olinda”, e com os meninos, na Igreja de Nossa Senhora do Monte, um lugar de referência situado no topo da cidade da Caála. Comovida com os relatos da madre Olinda, decidiu visitar o lar e diz ter ficado muito desolada com o que ali viu.
No sentido de se obter algum apoio, foi contada a multinacional Odebrecht que manifestou interesse em incluir o lar nos projectos sociais da empresa e permitiu que a sua sucursal do Huambo interviesse no dia-a-dia da instituição, promovendo um projecto que tivesse como base a auto-sustentabilidade.
Florinei Cardoso empenhou-se em fazer um primeiro levantamento e, posteriormente, uma estatística completa sobre o quadro das crianças, o que possibilita, hoje, às diversas instituições, terem uma visão mais sólida do centro.
A criança mais nova tem menos de um ano e, outras três, menos de quatro, enquanto 38 estão em idade escolar e 12 são adolescentes. Uma das crianças é filha de pai suicida, duas de pais alcoólicos, três de pais que morreram de causa natural, seis de pais deficientes, 11 de famílias carentes, 12 de mães que morreram no parto, 14 de pais desconhecidos, 22 de pais vítimas da guerra e 37 foram abandonadas.
Com os dados disponíveis, foram criadas condições para os adolescentes fabricarem cinco mil blocos, com vista à construção de um Centro de Formação Profissional. Todo o material necessário, incluindo uma máquina industrial de produção de blocos, foi colocado à disposição do lar pela multinacional, e foi solicitada à Igreja Católica uma ajuda em termos de voluntários. A obra foi erguida sob direcção de um mestre-de-obras da empresa. Mais de 60 voluntários foram mobilizados e tiveram o seu envolvimento directo no projecto, que está, actualmente, em fase de acabamento, destinando-se a garantir formação aos protegidos do lar, em matérias como inglês, costura, culinária, artesanato e de apoio, para aperfeiçoar o que as crianças aprendem na escola pública.
Concluídas as obras, o equipamento disponibilizado pela empresa fica à disposição do centro para produzir blocos, para que pessoas singulares possam ali comprar material de construção. A ideia é que a instituição possa auto financiar-se.
Segundo a madre Bernarda Cahenda, o governo provincial está a apetrechar o Centro de Formação com mobiliário escolar e o hospital da Caála juntou-se à iniciativa, prestando toda a assistência médica e medicamentosa regular. O projecto também é seguido pela associação Kambas do Bem, uma instituição filantrópica que presta instruções sobre os cuidados básicos de higiene e saúde a seguir. Desse grupo, o lar já recebeu toalhas, champôs, sabonetes, pasta dentífrica, escova para dente, entre outro material relacionado.
No âmbito do projecto “Crer-Ser – Realizando a auto sustentabilidade”, foi atribuído um canteiro aos 56 meninos, no qual cada um pode aperfeiçoar as técnicas de produção de alimentos. A iniciativa, bastante aplaudida pelo vice-governador do Huambo, José Paulo Cai, vai permitir  a comercialização da produção individual excedente.


Armando Estrela |Huambo

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Armando Estrela

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