“Desejo mandar os Bentos do MPLA para os calabouços da DNIC”

Alexandre Dias dos Santos “Libertador”
Alexandre Dias dos Santos “Libertador”

O ex-líder da Juventude Unida Revolucionária de Angola, organização juvenil da UNITA, Alexandre Dias dos Santos “Libertador”, expressou o desejo de levar às celas da DPIC o secretário do comité provincial de Luanda do MPLA, Bento Bento, e o cidadão Bento Kangamba.

Libertador, como também é conhecido, disse em entrevista a O O PAÍS que foram difíceis os 42 dias de prisão depois de condenado pelo juiz do Tribunal de Policia sob a acusação de desacatos à lei.
“Acredite que nas cadeias de Angola não tratam bem as pessoas”, afirmou. Conta que passou por várias unidades policiais e cadeias de Luanda até ao julgamento e o cumprimento parcial da pena na cadeia da Kabocha, nos arredores da Caxito, capital da província do Bengo.

Dentre os vários postos policiais por onde passou, reputa de marcante a situação da 19.a esquadra, ao Cassequel do Lourenço, devido às paupérrimas condições a que foram submetidos na cadeia daquela unidade policial.
“Aquilo foi um inferno, porque a cela era muito pequena nem sequer para dormir servia e para tal tinha que colocar os pés na parede e saí de lá doente com infecção urinária”, disse. Recorda que melhor acolhimento teve, antes do início do julgamento, na cadeia de Kakila, comuna onde estiveram durante três dias, mas a alimentação era péssima.

“Na Kakila fomos bem recebidos por todos os reclusos e com honras de “Chefe de Estado””, ironizou.
De regresso a Luanda, contou, ficaram detidos na Direcção Provincial de Investigação Criminal, considerada por este como um “inferno” a julgar pelo tratamento a que foram submetidos.

“A minha família mandava comida, lençóis, colchas mas nunca tive a sorte de receber. Nos dias que fiquei na Kakila os outros recebiam, a mim parecia que havia orientações superiores e não consegui receber nenhuma colcha. Eu dormia na pedra da DPIC, foi um dos piores sítios onde passamos. Odeio aquela cadeia e um dia gostaria de colocar lá o Bento Bento e o Bento Kangamba, no dia que este país mudar”, disse.

Alexandre Dias Dos Santos está furioso com estas duas figuras do MPLA porque supostamente desempenharam “papéis negativos ao falsearem as notícias, dizendo inverdades”. Os dois responsáveis do MPLA, de acordo com os manifestantes, apareceram publicamente a dizer que “estávamos arrependidos, além de afirmarem que havíamos solicitado dinheiro a Bento Kangamba, bem como proferiram agressões verbais por via do uso de termos inapropriados como arruaceiros”.

Terrível isolamento

Os primeiros dias de detenção na cadeia da Cabocha após o julgamento são descritos pelo interlocutor de “terríveis” por causa do tratamento de choque a que diz terem sido submetidos, com o seu confinamento a celas individuais sem liberdade de movimentos. Diz terem notado com estranheza que os verdadeiros criminosos tinham mais liberdade em relação a eles, explicou o ex-líder da JURA.
“O Bloco A onde estávamos, tinha vinte celas e cada uma tinha capacidade para oito presos, perfazendo um total de 160 celas, mas a direcção do presídio evacuou todo aquele bloco, deixando nele cinco pessoas para um lugar para mais de 60 pessoas, resultando em terríveis dias de isolamento, num lugar com bastante mosquito e abelhas que pareciam ser colocadas propositadamente”, deplorou.
A inversão paulatina da situação aconteceu após a manifestação do dia 18 de Setembro, sendo-lhes permitida a circulação pelo pátio, a partir daquela data e, posteriormente, puderam ter acesso a televisão e por fim a quebra do isolamento.
A partir de outros reclusos os manifestantes condenados obtiveram a informação que estavam naquele espaço porque, alegadamente, teriam tentado um golpe de Estado, razão pela qual alguns agentes, acrescentou, lhes eram muito hostis pelo facto de estarem mal informados sobre a situação.

Decisão do Supremo é uma armadilha

Considera que a decisão do Tribunal Supremo lhes restituir a liberdade é, na verdade, “uma armadilha”, resultante da pressão que estava a ser exercida interna e externamente, sobretudo de angolanos nos países da União Europeia e ainda a manifestação diante da Assembleia Nacional que estava agendada para terça-feira.
A decisão do Tribunal Supremo veio adiar a manifestação que deverá acontecer numa outra data, conforme alegação do entrevistado.
“A prisão reforçou a minha convicção de revolucionário”, disse.
A condição a que esteve sujeito na cela da 19.a Esquadra do Cassequel, associada aos 42 dias de prisão na cadeia da Cabocha, induziu-lhe momentos de reflexão e o reforço da sua convicção de revolucionário, garantiu Libertador.
A leitura na cadeia de livros como “Quando a Guerra é necessária e urgente”, “ Se Obama fosse africano” e “Purga em Angola”, terá reforçado o espírito revolucionário e por isso mostram-se predispostos a continuarem com as acções.

Reitera a denúncia de tentativa de aliciamento

Naquela ocasião Libertador reiterou a denúncia da suposta tentativa de aliciamento para abortarem a realização da manifestação com promessa de um valor de 270 mil dólares e mais oito carrinhas Mitsubishi L200, numa negociação encabeçada pelo administrador municipal do Sambizanga, José Tavares e um funcionário sénior do GPL.
De acordo com Alexandre Dias dos Santos, a única contra-proposta avançada pelo seu grupo foi a redução das propinas da faculdade para 150 dólares para adiar a manifestação do dia 03, algo que não aconteceu, entretanto.
“ Vimos que quem se mete com o MPLA corre perigo. Eles podem te dar uma coisa de manhã e depois receber-te de tarde ou de noite. Temos exemplo do Brigadeiro 10 Pacotes e Frydolim que receberam dinheiro do MPLA e hoje são perseguidos e preferimos não receber”, disse o jovem político que justificava desta forma a recusa.
Alexandre Dias dos Santos deu ainda o exemplo de um suposto líder da liga revolucionária do Cazenga que aliciado pela mesma via, actualmente encontra-se preso, estranhamente, depois de se manifestar diante do Tribunal de Polícia com um cartaz com os dizeres “Kadhaffi já saiu agora é o Zé Du”.
Ao que este jornal apurou, o líder do chamado “movimento revolucionário do Cazenga” foi detido por posse de droga que terá sido posta no seu carro por desconhecidos para o incriminar.
“O Mário está lá preso vimos ele rapidamente na DPIC e ele disse me meteram droga no carro”, recordou.
O PAÍS não foi bem sucedido na tentativa de ouvir a versão de Bento Bento, que não atendeu ás várias chamadas feitas para o seu telemóvel.

O FUTURO…

Novas manifestações e lançamento de um livro é o que Libertador diz estar na agenda dos manifestantes. Com efeito, “Tudo por causa de 32” é o titulo da obra a ser brevemente lançada no mercado que retratará as peripécias vividas pelos manifestantes condenados pelo Tribunal de Polícia.
Neste momento encontra-se na fase de compilação por cada membro grupo que esteve detido para serem incorporados os testemunhos dos agentes policiais, embora receiem pelo feed back por considerarem que ali foram ditas mentiras com o objectivo de salvaguardar a sua posição.
Anunciou para breve a realização de uma conferência de imprensa dentro de duas semanas com “todos os presos de consciência”, para rebater Bento Bento e Bento Kangamba, onde serão avançadas as datas de duas manifestações designadas “a marcha dos pobres” e “dos que não têm nada”, actos que deverão ocorrer no mês de Janeiro de 2012.
Disse que o grupo tem também agendada uma marcha de protesto contra a TPA, por alegadamente prestar um péssimo serviço público de informação, considerando mesmo o seu desempenho mais próximo de um comité de especialidade do MPLA.
Abordado sobre o discurso do “Estado da Nação” em que o Presidente da República advoga a necessidade de mais diálogo, o exlíder da Jura disse “sempre houve diálogo, mas só entre os jovens que trajam as camisolas vermelho, preto e amarelo, ou seja pessoas ligadas ao MPLA”.

Valdimiro Dias
Fonte: O País

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