Cuito entra nos trilhos da reconstrução nacional

Este edifício reabilitado da sede do governo provincial do Bié na zona nobre da cidade do Cuito tinha sido transformado em escombros
Este edifício reabilitado da sede do governo provincial do Bié na zona nobre da cidade do Cuito tinha sido transformado em escombros

Com a conquista da paz em 2002, Angola entrou nos trilhos da reconstrução nacional. Os traumas da guerra civil ficaram para trás e nas memórias de quem viveu o martírio da fome, sede e outros males, o momento é de sorrir e trabalhar para um futuro cada vez melhor. Para quem no período normal pesava 120 quilos e na guerra chegou a pesar 50, o pesadelo do passado virou piada para os familiares e amigos. Comer pele de boi, folhas de bananeira ou até uma mandioca amarga que pode causar desmaios é hoje motivo para fortes risadas.
A casa é de dona Maria de Fátima. Com ela estão dois filhos e o seu irmão menor de nome Chaves. Os filhos da dona Maria, na altura da guerra, eram ainda crianças e de nada se lembram. Mas Chaves, com 16 anos na altura, tem vagas lembranças dos tempos terríveis por que passou. Hoje com 34 anos tem olhos para o futuro e passos no progresso.
A conversa era harmoniosa. Das lembranças sobravam as risadas. E quem não viveu, apesar de sentir dor pela situação, acabava por embarcar nas gargalhadas. A curiosidade aumenta para quem nunca ouviu cenas do género. É assim no Cuito. Ao invés de lamentações, choros ou até ódio, os sofrimentos transformaram-se em piadas. “Somos muito jovens e mais do que cultivarmos o ódio resta-nos aproveitar o momento para contar aquilo que de mais crítico passámos e até nos rirmos da situação. Tudo passou”, disse Paulo Chaves.
O caso de quem perdeu por um período a menstruação por falta de comida ou ainda o facto de muitos chegarem ao ponto de consumirem kimbombo com perfume para aumentar o grau do álcool no organismo são, também, motivos para as piadas.

Reconstrução

Foram oito horas de viagem de carro entre Luanda e Cuito, província do Bié. Durante o percurso foi possível constatar o trabalho de reabilitação da estrada nacional que liga as duas províncias. Ao longo da via, existem ainda algumas máquinas que ultimam alguns detalhes, o que não impossibilita o percurso.
Para muitos dos jovens que compunham a caravana da JMPLA, era a primeira vez a visita à província do Bié, particularmente a martirizada cidade do Cuito, um dos municípios mais fustigados pela guerra.
Dos vestígios da guerra nada se nota. Ruas limpas, prédios totalmente reabilitados, novas escolas primárias, secundárias e institutos superiores, jardins-de-infância, estabelecimentos comerciais, entre outras coisas que são a imagem da nova cidade do Cuito, cuja população renasce de um triste passado com a esperança de futuro melhor.
Os comerciantes, aos poucos, como constatou a reportagem do Jornal de Angola, vão lançando os novos empreendimentos. Os bancos comerciais são uma outra luz verde para os populares do Cuito. Da zungueira das chinelas, aos ardinas, os roboteiros e taxistas vislumbra-se no semblante uma certa alegria que pressupõe dizer, como afirmaram à nossa reportagem, “não queremos mais guerra. Já sofremos muito. Aqui a paz veio para ficar”.
O incentivo aos jovens de apoio ao Executivo e ao processo de reconstrução nacional, bem como a preservação de todo o bem público até agora feito, era a palavra de ordem do secretário nacional da JMPLA, Sérgio Luther Rescova. Foi uma mensagem que levou para encorajar quem por um crime de homicídio tem de ficar 18 anos privado de liberdade. “É importante lembrar que apesar de estarem a cumprir uma pena de cadeia, sois importantes para o país. Por isso devem neste lugar aproveitar os cursos de formação para que quando saírem serem enquadrados na sociedade e darem o vosso melhor para o desenvolvimento da província”, disse Sérgio Luther Rescova, na visita efectuada à cadeia do Cuito.

 Andulo de perto

O município do Andulo dista 130 quilómetros da cidade do Cuito e tem uma extensão de dez mil e 700 quilómetros quadrados distribuídos em quatro comunas, nomeadamente Calussinga, Chivaulo, Kassumbi e Andulo. Tem como actividade principal a agricultura.A viagem do Cuito ao Andulo, de carro, dura duas horas e meia, numa estrada de terra batida, com buracos.
Com a construção do Instituto Médio Agrário, uma referência do município, Andulo recebe jovens provenientes das 18 províncias do país, que procuram formar-se em ciências agrárias.
A população está estimada em 311.544 habitantes. À semelhança do que ocorre em outros municípios, Andulo está a implementar o Programa Municipal Integrado de Combate à Pobreza e de Desenvolvimento Rural. Em declarações ao Jornal de Angola, a administradora do Andulo, Maria Lúcia Chicapa disse que o programa incorpora ainda os serviços municipalizados da saúde e micro-crédito agrícola.
A administradora reconheceu que os resultados do Programa têm sido positivos e visíveis na melhoria de vida das populações.
Maria Lúcia Chicapa considera a conclusão das obras da via principal que liga Cuito, Andulo e Malange uma mais-valia para o município. A criação de um núcleo universitário no município é também um dos ganhos. “Este sonho vai permitir que muitos jovens deixem de percorrer mais de 260 quilómetros todos os dias para frequentarem aulas nas faculdades de outras províncias”, disse.
A construção do centro social juvenil, um projecto de âmbito central, representa uma grande esperança para a juventude daquela região norte do Bié. “Com o centro social, os jovens vão poder ocupar os seus tempos, o que vai ajudar na mudança da sua conduta, proporcionando-lhes formação digna e aceitável para a sua personalidade e socialização”, concluiu.

População de esperança

António José viajou de Luanda ao Bié à procura de emprego. Com formação profissional na área de construção civil, o jovem de 32 anos conseguiu concretizar assim o seu maior sonho: o emprego. Ao longo dos seis anos em que se instalou no Cuito, José vê grandes melhorias na província. Quando chegou à cidade, os vestígios da guerra ainda eram notórios. “Hoje está tudo muito diferente”, disse sorrindo.
Com um serrote nas mãos, José corta uma tábua para armação de uma parede, ao mesmo tempo que conversa com a nossa reportagem.
Quem também saiu de Luanda para o Bié em busca de emprego é Calas Nelson, de 42 anos. Na capital do país, Nelson deixou a esposa e quatro filhos e no Cuito teve a oportunidade de conseguir um emprego. Deste modo, vê melhoria na sua vida e na da sua família. “A vida não é tão cara como em Luanda. Aqui, com o que ganho consigo mandar algum dinheiro para a minha família”, disse.
Quem também encontrámos a fazer o seu “biscate” é Noé Palanca, de 15 anos. É estudante da 7ª classe. O jovem estudante divide o seu tempo entre a escola e os seus pequenos “biscates”.
Com o dinheiro que ganha do trabalho que faz, transportar pequenos baldes de areia, Noé compra o material escolar e satisfaz as demais necessidades.

Domingo de reza

O domingo é um dia calmo na cidade do Cuito. É reservado para a busca do Espírito Santo. Uns buscam-no em grupo e outros nem por isso. Cada um com a sua fé tem este dia reservado à busca do Espírito Santo.
Tia Augusta Candivo está acompanhada de duas outras irmãs na fé, vestidas de lenços e panos do padroeiro Santo António. As três fazem parte de um grupo de 20 membros que depois da missa dominical caminhavam em direcção a casa de uma irmã que tinha, há alguns dias, enterrado o filho. O Domingo é para os cristãos do Cuito um dia sagrado. Nas ruas vêem-se grupos de crianças trajadas com as suas melhores roupas a dirigirem-se à igreja. “Vamos pedir para a paz ficar de vez no Cuito”, disseram.

Cristina da Silva | Cuito

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

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