“Cover” rende-se a Sebastião Martins

O médico Mambela Mbela, antigo médico do político Holden Roberto, não conseguia acreditar que tinha os membros da família intactos na manhã de ontem
O medico Mambela Mbela, antigo medico do politico Holden Roberto, não conseguia acreditar que tinha os membros da familia intactos na manhã de ontem

O médico Mambela Mbela, antigo médico do político Holden Roberto, não conseguia acreditar que tinha os membros da família intactos na manhã de ontem. Os seus dois filhos, Tiago e Isaac Mambela, 9 e 6 anos, os sobrinhos Rocha Mambela e Kétia Juliana, 4 e 21 anos, assim como a filha desta última, Márcia Mambela, foram mantidos reféns pelo assaltante Da Cruz “Cover”, 25 anos, depois de uma tentativa de assalto frustrada que o acusado e dois companheiros foragidos efectuaram num dos armazéns da comuna do Hoji Ya Henda, município do Cazenga.

Às 16 horas de anteontem, o suposto meliante irrompeu armado com uma pistola no interior da residência do rés-do-chão onde vive o médico, na rua Ilha da Madeira. Chegou depois de ter passado pelo tecto de algumas residências situadas na parte traseira do imóvel, quando tentava safar-se da perseguição dos agentes e oficiais da Polícia Nacional, que tinha cercado as imediações.
Consciente das dificuldades que teria no andar superior, por sinal completamente gradeado, o sequestrador preferiu barricar-se no espaço térreo, onde entrou depois de ter rompido uma das janelas que dão para o quintal e que pertence ao 1o andar. Daí em diante foi um autêntico sofrimento para os familiares e outros presentes, que resultou na morte de um agente da Polícia Nacional, a fuga de uma refém, libertação de outros e a captura do meliante.

O desfecho, que aconteceu com a rendição do próprio sequestrador, só foi possível às 23 horas e 45 minutos, após à intervenção do ministro do Interior, Sebastião Martins, que se diz ter chegado ao local por exigência de “Cover”, acompanhado do comandante geral da Polícia, Ambrósio de Lemos, e de Elizabeth “Bety” Rank Frank, comandante provincial de Luanda. A rendição ocorreu várias horas depois de negociações frustradas conduzidas pelo 2o comandante provincial da Polícia Nacional de Luanda, Dias do Nascimento, e pelo comandante municipal da corporação do Cazenga, Filipe Massala, que tentavam convencê-lo a todo o custo que libertasse os reféns e abandonasse a casa onde estava barricado sem receios de sofrer represálias. Ainda lhe prometeram alguns privilégios, mas “Cover” manteve-se irredutível até à chegada do titular do Ministério do Interior.

Kétia Juliana, a mais velha entre os cinco reféns, conta que o meliante entrou por uma das janelas. Quando os viu exigiu-lhes que se sentassem no soalho, enquanto no exterior da residência, com realce para o quintal, alguns agentes da Polícia Nacional procuravam formas de entrar no seu interior.
A jovem tentou, inicialmente, abrir a porta que dá acesso ao quintal para fugir com a filha Márcia Mambela, de três anos de idade, e os três primos, nomeadamente Tiago, Isaac e Rocha Mambela.
Apercebendo-se das intenções de Kétia, o sequestrador perguntou-lhe o que estava a tramar e se queria ser morta. Rapidamente, ela respondeu que não e já não voltaria a tentar evadir-se da residência. Voltou a sentar-se no chão, ao lado dos seus parentes e da sua primogénita.
“Perguntou se tinha telefone e saldo, eu disse que sim. Ligou para alguém e disse que tem cinco pessoas, uma mais velha e quatro crianças. Agora vou pegar primeiro a moça, matá-la e depois fazer o mesmo às crianças”, contou a O PAÍS Kétia Juliana. “Ele disse cala a boca. O meu tio ligou, ele atendeu o telefone. Começou a vomitar, pediu-me que buscasse água na cozinha”.

Emitindo sinais de que podia estar embriagado ou drogado, tendo em conta as informações avançadas pela interlocutora deste jornal, o sequestrador exigiu que lhe despejassem água sobre a cabeça. Inicialmente
foi água natural, ao que ele retorquiu negativamente, reivindicando que o precioso líquido tinha de ser fresco. A menina atendeu o seu pedido. Mas quando regressou à cozinha para repor a garraf na arca congeladora notou que podia fugir pela janela de um dos quartos próximos. E assim foi, mas teve um choque quando fora da residência encontrou o corpo do polícia abatido pelo meliante, estendido no quintal do apartamento onde este último estivera anteriormente.

Kétia explicou que nesta altura já não tinha medo do que podia acontecer, de tal forma que apalpou o corpo do agente para ver se ainda estava em vida. Quando viu que estava morto, com o sangue a espalhar-lhe no terreno, a jovem de 21 anos pôs-se aos gritos, até ser confortada por um outro efectivo da Polícia Nacional, que vigiava aquele ângulo da residência.

Imediatamente, foi colocada numa viaturas da corporação, que depois a utilizou para tentar convencer o barricado. Equipada com um colete à prova de bala e um capacete, os responsáveis da corporação ainda pensavam que com ela à porta provavelmente o rapaz cedesse. Mas o jovem não se deixou levar pelas pressões feitas, apesar dos “tiros de salva” efectuados pelos agentes e a resposta com balas reais efectuada por “Cover” em direcção à porta.
Momentos de terror

“O moço perguntou-me onde ela estava, disse-lhe que, se calhar, estava na cozinha. Ele foi ao corredor e não lhe encontrou. Lá fora os polícias estavam a fazer disparos”, contou o pequeno Tiago Mambela, 9 anos, que na ausência da prima tornou-se o mais velho do grupo de reféns.
Irritado com a fuga de Kétia, “Cover” não quis afastar-se dos restantes, principalmente de Tiago, a quem solicitou que o acompanhasse à casa de banho quando pretendia fazer necessidades maiores, de acordo com o próprio Tiago.

Nervoso, como o pequeno reconheceu estar diante dos pais na manhã de quinta-feira, lembra-se de ter ouvido o meliante dizer a um dos responsáveis da corporação que se tentassem romper a porta iria rebentar a botija de gás. E morrer com os miúdos que estavam no interior da residência.
O garoto lembra ainda de ouvir, já no final da odisseia, “o bandido a conversar com o general”, no caso o ministro do Interior, Sebastião Martins, “para que nos deixasse sair”. Só quando o governante chegou é que “Cover” largou os garotos e entregou às autoridades.

Tratamento psicológico

Um dia depois dos acontecimentos, o cenário na casa do médico Mambela Mbela era de esperança. A única crença

“Não estou a conseguir mesmo, penso que ele ainda está aí”

era de que não houve feridos nem mortos na família por obra de Deus.
Entre as vítimas, no caso os cincos elementos feitos reféns, o clima ainda era de medo. Kétia contou a O PAÍS que não conseguia deslocar-se à cozinha, por exemplo. Visivelmente traumatizada, ela dizia que via como se o meliante, que se entregara um dia antes, ainda estivesse lá dentro de casa com uma arma.
“Não estou a conseguir mesmo, penso que ele ainda está aí”, reforçou.

Ela não é a única pessoa da família traumatizada, Isaac Mambela, seis anos de idade, estava completamente assustado quando a equipa deste jornal se deslocou na manhã de ontem à residência dos Mambela, num bloco de apartamentos situado defronte ao antigo Centro Recreativo da Mãe Preta, no Hoji Ya Henda.

O pequeno Isaac só queria permanecer no interior da residência, tendo declinado o convite do irmão mais velho, Tiago Mambela, para que se juntasse a ele no quintal. O medo foi maior quando via os flashes que vinham da máquina fotográfica do repórter desta casa, que tirava imagens do seu progenitor e outros membros da família.
O médico Mambela Mbela contou que o Ministério do Interior e o comando da Polícia Nacional garantiram que dois psicólogos deslocar-se-iam à sua residência para prestarem ajuda aos membros da família, principalmente aqueles que estiveram envolvidos directamente no drama protagonizado pelo jovem “Cover”, na quarta-feira.
Mambela Mbela

Pai esteve prestes a perder a esperança

O médico Mambela Mbela disse que já não acreditava num desfecho favorável para os seus filhos, sobrinhos e netos quando assistiu o desembarque no local dos efectivos da Polícia de Intervenção Rápida (PIR), receoso de que estes invadissem a residência para desarmarem o jovem “Cover”.
“Quando chegaram com todo o armamento e meios disponíveis, achei mesmo que haveria tiroteio e que não seria possível salvar as crianças que estavam dentro de casa”, contou, acrescentando que “ou o próprio bandido podia disparar contra os meninos”.

O antigo director clínico do Hospital Américo Boavida foi informado do cerco de sua residência através de um
telefonema, quando regressava à casa depois de mais um dia de trabalho.
“A situação tornou-se crítica quando o bandido viu que tinha baleado o polícia e ameaçava matar-se também. Ele apagou a luz dentro de casa e com a iluminação pública na rua, conseguia observar os passos de qualquer pessoa”, explicou o médico.

Mambela Mbela disse que estava num situação de tensão que não consegue descrever, exigia apenas aos agentes e oficiais da Polícia Nacional lhe permitissem aproximarse da sua residência. Mas também não lhe deixavam, reconhecendo um dia depois que “tinha ficado sem controlo e só depois podia ter actuado ali”.
Durante as negociações, que foram feitas através do telefone que a sua sobrinha deixou no interior da residência, o médico acredita que o meliante terá demonstrado uma certa desconfiança em relação ao futuro se se entregasse aos dois oficiais que lá estavam inicialmente: Dias do Nascimento, 2o comandante de Luanda, e Filipe Massala, do Cazenga.

“Os comandantes falaram com ele. Fizeram-lhe algumas promessas, mas ele não estava acreditar e dizia que só podia sair com a presença do ministro. Mais tarde as entidades apareceram aqui, só quando viu que as coisas eram sérias é que saiu e entregou os miúdos”, explicou Mambela Mbela.

O chefe da família realça que os filhos ficaram completamente traumatizados, de forma que o comandante geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, prontificou-se em garantir psicólogos para ajudarem os então reféns.
O médico louva ainda o papel da Polícia Nacional pelo empenho das suas forças a nível do município e da província em geral. “Agradeço muito e estou bastante satisfeito com o desfecho, sobretudo porque não houve danos. O mais importante é que os miúdos não foram lesados”, concluiu Mambela Mbela, que acompanhou o drama ao lado de uma outra filha, que esteve no colégio enquanto os irmãos eram feitos reféns.

Ministro

“O importante é que as crianças estão bem”

No final da operação que ditou o resgate dos reféns e a entrega do jovem “Cover”, o ministro da Interior, Sebastião Martins, realçou que o mais importante é que as crianças estavam bem, tendo em conta que o estado destas era a principal questão que o apoquentava quando lá se deslocou.

Além da segurança que o meliante buscava no governante, ele exigiu ainda que a sua saída fosse feita perante às câmaras da Televisão Pública de Angola (TPA). O ministro ainda chegou a reconfortar-lhe que naquele dia “o herói era ele”, razão pela qual podia abandonar a residência onde estava barricado sem receios.

Quando “Cover” deixou o interior da casa dos Mambela tinha encetado contactos antes com o comandante do Cazenga, Filipe Massala, e o 2o comandante da Polícia Nacional, Dias do Nascimento, que utilizou o telemóvel e um megafone de uma viatura da corporação.

Filipe Massala, responsável da Polícia no município onde se registou o caso, recusou-se a prestar qualquer informação a O PAÍS ontem, alegando que tudo já tinha sido dito pelo seu superior hierárquico, no caso o
ministro do Interior.

Este jornal apurou que “Cover”, que disse no local ao ministro Sebastião Martins ter noção do que tinha feito, foi encaminhado para a Direcção Provincial de Luanda de Investigação Criminal (DPIC).
O porta-voz da Polícia Nacional em Luanda, Nestor Goubel, garantiu ontem que o jovem terá tratamento semelhante a que têm direito outros criminosos. Vai responder judicialmente, como frisou também o próprio ministro.

Dani Costa

Fonte: O Pais

Fotografia: O Pais

 

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