Chamada perdida para o BlackBerry

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Qwertyuiop.” Diz uma antiga lenda que essa estranha combinação de caracteres teria sido o conteúdo do primeiro e-mail da história. O ano era 1971 e o seu autor, Ray Tomlinson, um programador contratado pelo Departamento de Defesa americano para ajudar a construir as redes militares que mais tarde serviriam de base para a internet.

 
Lazaridis, um dos fundadores: A BlackBerry levou tempo a perceber que os executivos também gostam de se divertir

Tomlinson certamente não percebeu que estava perante uma invenção tão importante — caso contrário, talvez tivesse escrito algo mais memorável  do que os referidos caracteres “q-w-e-r-t-y-u-i-o-p” que formam a primeira fila da maioria dos teclados.

Essa sequência de letras também foi responsável pelo sucesso de uma empresa que ajudou a definir o que se entende por “computação móvel”. A canadiana Research in Motion, ou RIM, lançou em 2002 o primeiro BlackBerry. Imediatamente o aparelho, dotado de um teclado completo, tornou-se um objecto inseparável para os executivos em todo o mundo.

Com o novo aparelho, iria ser possível escrever a partir do telemóvel. E graças a um robusto sistema de e-mail, o BlackBerry passou a ser um símbolo da nova geração de telemóveis, os smartphones.

Marca líder perdeu a iniciativa do jogo

 

A  BlackBerry subestimou a Apple e Google. Durante anos, a marca pensava que os seus telemóveis, dirigidos aos executivos, não deveriam ter câmara ou um leitor de MP3

Desde então, a canadiana RIM viveu anos dourados. No ano seguinte ao lançamento do seu produto-estrela, a empresa já figurava entre as 100 maiores da Bolsa norte-americana Nasdaq, onde estão listadas as principais empresas de tecnologia do mundo. Os fundadores da RIM, Mike Lazaridis e Jim Balsillie, que até hoje dividem o cargo de presidente da empresa, passaram a ser apelidados de visionários.

 

Em 2005, a RIM chegaria aos 4 milhões de clientes, o dobro do ano anterior. Em 2008, conquistou 52% de quota no mercado americano de smartphones, ano no qual facturou 6 mil milhões de dólares.

Como os bons ventos não sopram para sempre, a RIM vê-se hoje numa posição menos confortável. À primeira vista, os resultados fiscais da empresa mantêm-se positivos. No primeiro trimestre do ano, a empresa vendeu quase 14,9 milhões de unidades, mais 700 mil do que no período homólogo do ano anterior. Tais resultados, porém, não têm sido suficientes para travar a longa tendência de queda das acções da empresa na Bolsa, nem para combater o cepticismo dos investidores e analistas.

O resultado é uma espécie de paradoxo. Ao mesmo tempo que a RIM cresce em vendas, em grande parte devido à entrada do BlackBerry em novos mercados, a empresa vale menos dinheiro. Em apenas dois anos, o seu valor caiu para metade.

A RIM parece não ter percebido, mas parte da explicação para este paradoxo remonta a 2008, quando um competidor aparentemente inócuo começava a ganhar espaço no mercado. Com um teclado virtual e sem os itens de segurança exigidos pela maioria das empresas, o iPhone parecia não oferecer risco ao domínio do BlackBerry no mundo empresarial. Mas através de uma inovação quase tão radical quanto o próprio aparelho, a Apple criou um mercado de aplicativos, a App Store. Dezenas de milhares de programadores passaram a criar softwares para o iPhone, aumentando o valor e a utilidade do aparelho da Apple. Enquanto isso, a RIM ficou parada. Primeiro a Apple e depois o Google, com o sistema Android, criaram um enorme ecossistema de programadores.

Tornou-se comum ouvir dizer que “a RIM perdeu a iniciativa do jogo”. E, para muitos analistas, não faltam motivos para acreditar nisso. A companhia, que já teve mais de metade do mercado global de smartphones, hoje tem uma quota de apenas 20%. A RIM insistiu em características mais técnicas que tiveram um impacto reduzido na decisão de compra: segurança, bateria mais duradoura e menor consumo de dados — uma das “vantagens” anunciadas nas campanhas de marketing dos BlackBerry é a capacidade de consumir até 70% menos dados do que smartphones convencionais.

Durante anos, Mike Lazaridis, responsável pela tecnologia dos BlackBerry, afirmava que os seus aparelhos jamais teriam câmara, leitores de MP3 e nomes facilmente identificáveis. “Um BlackBerry com um nome é ridículo”, dizia. Hoje, a linha de aparelhos da RIM está repleta de aparelhos com nomes como Bold e Storm. E todos têm câmara e players de MP3.

Playbook é a aposta para os tablets

 

O mercado de smartphones em todo 
o mundo deverá crescer 55% em 2011. 
A BlackBerry já teve mais de metade do mercado. Hoje, tem uma quota de 20%

Muitos analistas acham que estas mudanças vieram tarde de mais. Por não ter percebido a evolução da internet e dos aparelhos que se tornaram um fenómeno de moda, a RIM está a pagar um preço alto. De acordo com a consultora IDC, o mercado de smartphones em todo o mundo deverá crescer 55% em 2011, à medida que um número cada vez maior de utilizadores trocar os modelos básicos por aparelhos mais avançados. Este ano, segundo as estimativas da IDC, serão vendidas 472 milhões de aparelhos contra os 305 milhões de 2010. Em 2015, o número de smartphones vendidos pode chegar a 982 milhões.

 

Estes números não incluem os tablets que, como os smartphones, dependem de um sofisticado sistema de desenvolvimento de aplicativos para atrair os consumidores. Este ano, a RIM lançou a sua versão de tablet, o Playbook. Apesar de ter recursos tecnológicos de ponta, o Playbook não oferece um software de e-mail: é preciso ter também um BlackBerry para poder usar o mais essencial dos programas.

O mercado dos smartphones, como se vê, pode não precisar da RIM para avançar. Há quem acredite, no entanto, que os BlackBerry terão sempre lugar no bolso dos empresários e executivos — mesmo que no outro bolso esteja um smartphone de outra marca. Pode ser. Mas é pouco para quem já foi sinónimo de inovação.

 

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Por: André Faust

Fonte: Exame

Foto: Exame

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