Carregadores, uma profissão de sobrevivência

O transporte informal de carga e mercadorias está a ganhar uma dimensão renovada na na província do Huambo
O transporte informal de carga e mercadorias está a ganhar uma dimensão renovada na província do Huambo

Huambo – O transporte informal de carga e mercadorias está a ganhar uma dimensão renovada na na província do Huambo.
A prática é velha em África e no mundo fora. Aqui no planalto central são na maioria desmobilizados que, na falta de um emprego formal, optam pelo transporte de carga para o sustento das suas famílias.
É um negócio que enriquece uns e serve de sobrevivência a outros, seja qual for a forma. Camiões, navios, aviões, comboios e homens transportam diariamente diversos tipos de mercadorias e carga.

Por cá, o transporte informal de cargas constitui a renda que alimenta milhares de famílias. Para os carregadores, não existe distância, nem hora! Aos ombros, à cabeça, em bicicletas, carros de mão, motorizadas, estão sempre ali, dispostos a fazer chegar a carga ao destino que o cliente ditar. O mais importante para eles é completar o trabalho para no fim da jornada fazerem-se as contas.

“Para os carregadores, não existe distância, nem hora! Aos ombros, à cabeça, em bicicletas, carros de mão, motorizadas, estão sempre ali, dispostos a fazer chegar a carga ao destino que o cliente ditar”

O trabalho, segundo alguns, não é muito rentável, quando adicionados os custos de manutenção do meio e de aquisição do combustível. As distâncias a percorrer a pé, no caso dos carregadores que se servem de carros de mão, são longas. A mesma contrariedade grandes e cansativas distâncias enfrentam os que se valem de bicicletas.

O trabalho começa logo pela manhã, por volta das cinco horas e só termina depois das 6 da tarde. Antes, o transporte de cargas maiores era feito apenas por carros de confecção artesanal, em madeira, com apenas uma roda, os conhecidos “cangulos” , ou por motorizadas de duas rodas.
As pequenas cargas, entre 25 e 100 quilos, geralmente são transportadas aos ombros, pelos chamados “trabalhadores,” que podem movimentar as diversas mercadorias em percursos de até dois quilómetros. Os preços variam entre os 50 e 200 kwanzas.
As motos de duas rodas, os chamados kupapata, têm a particularidade de transportarem também passageiros, além de carga.
Se o transporte da pessoa de um bairro ao outro custa 100 kwanzas, com a carga o transporte sobe para 200 ou 300 kwanzas.

No Huambo é muito comum verem-se motorizadas de duas rodas a transportarem passageiros, e, com eles, mais quatro ou cinco grades de refrigerantes ou cervejas, dois ou mais sacos de mercadoria diversa.
Valentim Jamba desmobilizado de 37 anos é moto-taxista há três anos e trabalha para um patrão. No fim de cada semana compete-lhe entregar ao dono da moto quatro mil kwanzas, valor que nem sempre consegue angariar.
Jorge Ernesto, 26 anos e há sete a trabalhar como kupapata, diz que a profissão nada mudou na sua vida. Ele pensa ter a sua própria moto mas desconfia que o sonho não passe disso mesmo, a julgar pela receita reduzida que arreacada.
É um transporte arriscado, tendo em conta que o motociclista praticamente não tem equilíbrio em cima da moto. Sacos, caixas, até lenha, são transportados nas bicicletas. O movimento é feito de forma lenta e o ciclista ao invés de pedalar empurra o meio para poder ganhar equilíbrio.

Um trabalho duro
Entre os homens que fazem o transporte de mercadorias, conversámos com Samuel Agostinho, desmobilizado de 38 anos, sem formação nem emprego.
Samuel diz que o transporte de mercadorias com carro de mão é a única forma que encontrou para sobreviver.
Às primeiras horas da manhã, diariamente, posiciona-se à porta de estabelecimentos como lojas e armazêns, à espera de clientes. No fim da jornada, tem sempre algum dinheiro que, mesmo sendo exíguo, garante-lhe a sobrevivência da família, de sete membros.

“Os rendimentos são poucos. Ultimamente aumentou o número de colegas aqui. E para nos dificultar ainda mais, surgiram em grande número, desde o ano passado, as motas de três rodas, que vieram nos tirar quase todos os clientes,” lamentou Samuel Agostinho. “Muitas vezes conseguimos levar mercadoria dos clientes conhecidos, ou daquelas pessoas que moram nas zonas onde as motos de três rodas não conseguem chegar,” disse o nosso interlocutor, pai de cinco filhos.

O trabalho é duro, já que algumas vezes têm de transportar mais de 200 quilos, num percurso de cerca de cinco quilómetros. “Quanto mais pesada for a carga, mais poderemos cobrar, mas isso reduz o tempo de vida útil do carro que exige manutenção regular”, afirmou.
O ganho diário pode atingir entre mil a dois mil kwanzas.
“Mas há aqueles dias que a pessoa volta para casa com apenas duzentos kwanzas”, lamenta, para dizer que se não fosse o tempo que fez a cumprir o serviço militar, poderia ter um emprego mais digno.
A nota negativa no dia-a-dia destes transportadores é que quase todos eles consomem bebidas alcoólicas, como caporroto, kimbombo. Outros optam pelos pacotes The Best.

BAIXOS RENDIMENTOS E ALTOS CUSTOS DE MANUTENÇÃO

Junto de vários estabelecimentos comercias, na província do Huambo, principalmente naqueles que vendem materiais de construção ou mobílias, a fila de moto-táxis de três rodas chega a atingir o número de dez unidades. O carregamento é feito por ordem de chegada ao local.
Normalmente os moto-taxistas que transportam cargas trabalham para um terceiro, já que dizem não terem dinheiro para comprar a sua própria motorizada. A compra de um meio daqueles implica possuir valores entre entre 150 e 200 mil kwanzas.

O jovem Joel confidenciou-nos que num dia de muita clientela pode-se facturar entre cinco a oito mil kwanzas.
Joel disse que estuda de noite e aproveita o dia para trabalhar e pagar não só os estudos mas também sustentar a família. “É o único emprego que consegui para ter dinheiro todos os dias.
“A mota não é minha, mas consigo fazer o dinheiro do patrão, cinco mil por dia, e ter ainda algum troco para mim, para além de um dia na semana que trabalho para mim mesmo,” disse.
Como Joel existem muitos jovens que fazem o seu ganha-pão transportando mercadorias pelas cidades do Huambo. De acordo com os motoqueiros, só as peças de reposição chegam a custar um pouco mais que o ganho do dia. São eles, os condutores, que tratam da manutenção e reabastecimento em combustível do
equipamento, sem ter de mexer no dinheiro do dia do patrão.
“Os acessórios deste tipo de motorizada são difíceis de encontrar no mercado. As empresas compram as motorizadas, mas não importam os acessórios. Se a moto avaria, o condutor é obrigado a procurar no mercado para conseguir a peça, sob pena de perder a motorizada para um outro condutor,” explicou o jovem.

Como conseguir os meios
São várias as lojas que comercializam motorizadas na província do Huambo. As motos mais vendidas são de marca Bajaj, cujo preço varia entre os 100 e 180 mil kwanzas. São motorizadas consideradas de luxo, por uns, e de recreação, por outros.
As motos de três rodas, de diversas marcas, como Kewezeque, na sua maioria de fabrico chinês, custam entre 180 e 220 mil kwanzas.
A condução é feita por jovens com ou sem licença para tal. A exigência do capacete é de lei mas nem todos cumprem com esta disposição do Código de Estrada.
A bicicleta em diversas lojas da província custa entre 25 e 35 mil kwanzas, mas a venda deste meio tende a reduzir devido ao surgimento das motorizadas de três rodas, segundo o comerciante Jorge Amaral.
Amaral disse que já deixou de importar bicicletas desde o ano passado porque vendem-se muito pouco. Já os carros de mão são feitos em diversas marcenarias locais, mas é no mercado informal da Kissala, vulgo Alemanha, onde mais se encontram. Há-os de todas as dimensões e capacidades, verdadeiramente ao gosto do interessado. O preço oscila entre os oito e os 10 mil kwanzas, sempre em função da capacidade de carga.

Beneficiários satisfeitos
Normalmente são as vendedoras as maiores utilizadoras das motos de três rodas, para transportarem as mercadorias de casa para o mercado e vice-versa. No maior mercado informal do Huambo é bem visível o vai e volta destes meios de transportes de mercadoria que relegaram as viaturas Hiace para segundo plano. As beneficiárias e alguns vendedores dizem que fica mais barato alugar uma moto de três rodas do que um Hiace, pois têm a vantagem de levar muita carga a um preço mais baixo.
“Imagina meu filho, eu vendo roupa usada. Nos dias que tenho de ir ao armazém comprar alguns balões de fardo pago menos de dois mil kwanzas da cidade ao mercado. No Hiace pagava três a dois mil e quinhentos Kwanzas,” disse Custódia Hossi, apoiada pelas colegas. Com a chegada do período chuvoso, os moto-taxistas estão a adaptar lonas nas carroçarias para proteger a mercadoria dos clientes e os passageiros.

João Manuel
Fonte: O Pais
Fotografia: O Pais

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