Campo prisional produz alimentos

O dique erguido sobre o rio Kwebe com várias comportas tem por função reter e encaminhar água para o canal de irrigação
O dique erguido sobre o rio Kwebe com várias comportas tem por função reter e encaminhar água para o canal de irrigação

O antigo centro prisional do Missombo, situado a 18 quilómetros de Menongue, está a ser alvo de profundas mudanças que podem vir a dar muito que falar, devido à aposta do Executivo angolano de transformar a região da famosa cadeia num dos principais pólos de desenvolvimento agrário do Kuando-Kubango.
Muito antes de ser elevada à categoria de comuna na década de 1980, já os portugueses, na era colonial, tinham descoberto as potencialidades que esta região oferecia no domínio da agropecuária. Para tirarem maior proveito dessa característica, instalaram no local um presídio para onde eram encaminhados centenas de nacionalistas angolanos, que se encarregavam da produção de alimentos e da criação de animais, que serviam de sustento à comunidade portuguesa que habitava na então cidade de Serpa Pinto.
Actualmente, fala-se em 12 milhões de dólares aplicados na construção de um canal de irrigação de 6,5 quilómetros de extensão, um investimento jamais visto em toda a história agrária das conhecidas  “Terras do fim do mundo” e que visa produzir, anualmente, mais de 40 mil toneladas de produtos diversos.
Mesmo antes de começar a produzir os seus frutos, o novo cartão de visita do Kuando-Kubango já está a fazer furor entre a população, que esfrega as mãos de contente com a perspectiva do relançamento do sector agrícola no antigo campo prisional. Nos bares, lanchonetes e noutros recintos públicos, todas as conversas giram em torno do Missombo. O coordenador do núcleo instalador da Sociedade de Desenvolvimento dos Perímetros Irrigados (SOPIR), o engenheiro agrónomo Agostinho Dias, que fez as honras da casa, começou por mostrar à equipa do Jornal de Angola o dique erguido sobre o rio Kwebe, com um total de 26 comportas, que têm por função reter e encaminhar água para o canal, e manter o curso normal do rio.  A uma certa distância, divisamos máquinas abrindo novas ramificações da vala e um grupo de homens empunhando enxadas, desbravando a terra, em movimento uniforme acompanhado de cânticos que os galvanizam no trabalho.
O nosso cicerone explica: “Aqui no Missombo, todos os dias é assim, logo ao alvorecer, já o pessoal está aqui pronto para trabalhar, porque temos metas a cumprir e uma delas é de até Dezembro próximo os campos estarem completamente verdes com culturas de bens alimentares diversos, para dar resposta aos programas do Executivo de combate à fome e redução da pobreza no meio da rural.
“Vamos substituir a agricultura de subsistência por uma de produção mecanizada, onde as cooperativas, as associações, os agricultores e camponeses, que estiverem a trabalhar no perímetro irrigado do Missombo, se sintam valorizados pelo seu esforço e produzam alimentos para obter rendimento satisfatório e acabarmos, de uma vez por todas, com o velho hábito de importar os produtos do campo de outros países”, desafiou.

Distribuição de terras

Agostinho Dias explicou que a SOPIR, uma empresa pública, assumiu na totalidade a gestão do perímetro irrigado do Missombo e está neste momento a dividir as terras em talhões para serem entregues aos camponeses e agricultores inscritos na Direcção Provincial da Agricultura e na administração comunal de Missombo.
Neste contexto, adiantou, estão já preparados mais de 400 hectares de terras, onde serão lançadas, durante estes primeiros dias do mês de Outubro, cerca de 20 toneladas de semente de batata rena, que já começou a chegar ao local das sementeiras. Cinco hectares estão a ser geridos por uma cooperativa das Forças Armadas Angolanas (FAA), nos quais cultivaram hortaliça diversa para os seus efectivos.
Para a Mecanagro, que solicitou espaço para apoiar também outras associações e cooperativas agrícolas, foram reservados 500 hectares, enquanto outros 150 serão distribuídos aos antigos camponeses da comuna de Missombo, à razão de dois hectares para cada pessoa, para se diversificar a qualidade dos alimentos a serem produzidos ao longo do canal de irrigação.
Destinados à implantação de um pomar de laranjeiras, tangerineiras, limoeiros, mangueiras, pereiras e papaias, foram reservados 450 hectares e outros 300 estão a ser preparados para o cultivo de milho, massango, massambala e feijão.
Está igualmente prevista a construção de duas pocilgas, igual número de naves para a reprodução de aves, dois tanques banheiros, mangas de vacinação, aquisição de centenas de cabeças de gado bovino, caprino, ovino e de milhares de pintos pré-criados, a instalação de dois pivots centrais para a irrigação, um investimento de mais de 40 milhões de dólares americanos.

Centenas de empregos

De acordo com o engenheiro Agostinho Dias, o arranque dos trabalhos do perímetro irrigado do Missombo está a criar centenas de empregos para os locais e jovens da cidade de Menongue, muitos dos quais já começaram a afluir para aquela comuna à procura de uma oportunidade para entrar no mercado de trabalho ou na tentativa de montarem o seu próprio negócio. Muitos deles estão a trabalhar para a Sociedade de Desenvolvimento dos Perímetros Irrigados na preparação de terras para a sementeira, manutenção e fiscalização dos espaços e do canal, “para não comprometermos todo um processo”.
Nalguns lugares já é visível a produção de quantidades satisfatórias de tomate, cebola, alface, alho e couves diversas, uma iniciativa de antigos camponeses locais e que hoje continuam a realizar o mesmo trabalho ao longo da vala de irrigação. A SOPIR vai continuar a trabalhar com essas pessoas e atribuir espaços maiores para que possam diversificar as suas culturas, quer em qualidade quer em quantidade, para abastecer o mercado local, que continua muito dependente dos países vizinhos e das províncias do Bié e do Huambo, que escoam para o Kuando-Kubango quase metade da sua produção.
O objectivo é primar por uma agricultura mecanizada, com o propósito de tornar o Kuando-Kubango auto-suficiente do ponto de vista de produção de alimentos, para que, “em caso de necessidade e em situação de calamidades naturais que eventualmente possam ocorrer nesta região ou em outras províncias do país, estejamos prontos para dar o nosso contributo”, explicou Agostinho Dias.

Infra-estruturas sociais

A SOPIR vai construir na comuna várias infra-estruturas sociais para apoiar os camponeses, suas famílias e a população local, que infelizmente continua a utilizar as águas do canal de irrigação para realizar as suas actividades domésticas, como a limpeza pessoal, lavar a loiça e a roupa, uma atitude que se prevalecer pode vir a comprometer as culturas.
Por essa razão, disse, a SOPIR vai construir, a curto prazo, naquela localidade, duas escolas do ensino primário, um posto de saúde, dois fontenários de água potável e algumas lavandarias públicas, para evitar que as pessoas continuem com esse tipo de atitudes, uma vez que as culturas não podem ser regadas com água infectada com sabão ou outro detergente, porque isso pode deitar por terra todos os esforços desenvolvidos para aumentar a produção no campo agrícola. A médio e longo prazo, consoante os níveis de produção do perímetro irrigado, vão ser construídas fábricas de concentrado de tomate e de frutas para a produção de sumos e moagens.

Ruínas

Enquanto isso, a sede da comuna do Missombo, que fica a escassos 18 quilómetros da cidade de Menongue, capital do Kuando-Kubango, está em ruínas.  Os antigos edifícios, que serviam de apoio ao estabelecimento prisional da administração colonial, estão em avançado estado de degradação, conferindo à sede comunal uma imagem rústica e uma sensação de completo abandono.
O edifício que alberga os serviços da administração comunal, cuja cave serviu de cadeia durante o período colonial, está prestes a desabar. O capim e sucata de equipamento militar ali abandonado é visto por tudo quanto é canto da vila de Missombo.
O seu administrador em exercício, João Katengo Muassenha, acredita em dias melhores, mas é de opinião que pelo passado histórico no contexto do processo de libertação do país, o Missombo devia merecer mais atenção por parte das autoridades competentes, numa homenagem às centenas de nacionalistas angolanos que ali se bateram para libertar Angola do jugo colonial.
A comuna tem uma população de aproximadamente cinco mil habitantes que se debatem com falta de água potável e de energia eléctrica. No capítulo da educação, mais de mil crianças ainda se encontram fora do sistema normal de ensino por falta de espaços.
Desde que Angola se tornou independente, ganhou apenas uma residência para o administrador, outra para o seu adjunto, uma esquadra da Polícia, três escolas que leccionam do ensino de base até ao primeiro ciclo e um posto médico que deve ser ampliado para centro de saúde, para poder dar resposta à malária, às doenças diarreicas e respiratórias agudas, as mais frequentes na região.

Lourenço Manuel | Missombo

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Lourenço Manuel

 

DEIXE UMA RESPOSTA