Banco Nacional garante liquidez

José de Lima Massano
José de Lima Massano

Momentos depois da primeira reunião do Comité de Política Monetária, o governador do Banco Nacional de Angola (BNA) falou ao Jornal de Angola da expectativa criada com o estabelecimento, pela primeira vez, de uma taxa de juro de referência na economia. José de Lima Massano admite ser grande o diferencial entre as taxas cobradas pelos bancos comerciais nos empréstimos e aquela que pagam pelos depósitos. Na entrevista, fala ainda da capacidade dos bancos em financiar as iniciativas empresariais, da expectativa criada com o novo regime cambial para o sector petrolífero e assegura que o BNA vai continuar a intervir no mercado para garantir a liquidez necessária para a economia.

Jornal de Angola – Até que ponto é importante a reunião do Comité de Política Monetária?

José de Lima Massano
– É um momento marcante na história recente do Banco Nacional de Angola, porque começamos a aplicar um novo quadro operacional para a execução da política monetária em Angola em que o Banco Central passa a influenciar de modo mais activo na preservação do valor da moeda. O Comité de Política Monetária tem a responsabilidade de, mensalmente, fazer uma avaliação do estado geral da economia nacional, da evolução dos principais indicadores de natureza monetária e cambial e comportamento do contexto externo. Em função dessa leitura e expectativa de comportamento de preços, passa a ser definida uma taxa básica de juros, indicando mais, ou menos, o seu crescimento, mas procurando essencialmente assegurar o cumprimento do objectivo de inflação.

JA – Qual o cenário que ditou as decisões desta primeira reunião do Comité de Política Monetária?

JLM – Realizamos num contexto em que a nossa economia continua a dar sinais de crescimento e de estabilidade macroeconómica. O sector não petrolífero a manifestar-se robusto – devemos terminar este ano com uma taxa de crescimento de 8 por cento – e, sobretudo, mantém-se em linha o objectivo de inflação de 12 por cento. Definimos uma primeira taxa base que nos servirá de referência para abordagem inicial à eficácia da taxa de juro como instrumento de transmissão da política monetária. Procuramos também manter um nível de taxa de juro que permita manter controlada a evolução da oferta monetária.

JA – O estabelecimento da taxa básica de referência em 10,50 por cento significa expansão ou a retracção do crédito?

JLM – Tendo em conta os objectivos da inflação para o ano em curso e antevendo já o comportamento da nossa economia para o primeiro trimestre do próximo ano, queremos que a política monetária tenha um efeito neutro, permitindo que os preços na economia permaneçam estáveis e que o crescimento económico aconteça num ambiente de grande estabilidade. Entendemos também que, a este nível, vamos continuar a assistir a concessão de crédito aos níveis actuais, mas com taxas melhor ajustadas às necessidades reais de crescimento do tecido empresarial.

JA – O que quer dizer com efeito neutro?

JLM – Uma política monetária neutra significa manter estável o crescimento dos agregados monetários. Entendemos que estamos no curso certo, o crescimento da economia está compatível com a evolução dos meios de pagamento, não se justificando, nesta altura, uma decisão para acelerar o multiplicador monetário e criar uma indesejável pressão sobre os preços na nossa economia.

JA – Como avalia as taxas que se praticam actualmente no mercado?

JLM – Temos assistido a uma grande volatilidade da taxa de juro em moeda nacional na nossa economia. Parte dos propósitos que nos motivou a determinação de uma taxa de referência, além de sinalizar o curso da política Monetária, é permitir que os operadores económicos possam ter referências na negociação de novas operações de crédito com as instituições financeiras. O mesmo vale para qualquer cidadão ou empresa que queira ver os seu depósitos remunerados, estabelecendo-se relações mais justas. Mas é preciso notar que a taxa básica de juro (taxa BNA) não é mandatória. Trata-se de uma taxa de referência que vai ditar a Luibor.

JA – Como vão funcionar, na prática, as duas taxas?

JLM – A taxa BNA vai actuar como um sinalizador para a formação da Luibor, que é a taxa de juro que vai se aplicado no mercado secundário. A taxa BNA quer corrigir a Luibor, trazendo-a para um nível adequado para os objectivos de estabilidade que o Banco Nacional de Angola persegue. Na prática, temos uma taxa de absorção e outra de cedência de liquidez, que formam uma espécie de corredor para que os bancos, na sua relação entre si estabeleçam as suas taxas de juro. Para definirmos este corredor e os limites máximos e mínimos, o BNA actua com a taxa básica de referência. A nossa expectativa e de que, com o corredor definido, com a diferença que vai entre a taxa de absorção e a taxa de cedência, se situe então a Luibor. Esta taxa Luibor é que vai ser utilizada pelos bancos comerciais na relação com os seus clientes.

JA – Neste caso, como devem ficar as taxas depois de lançada a taxa de referência?

JLM – Dos registos que temos no BNA, as taxas de juro para investimento, em moeda nacional, estão entre os 11 e os 23 por cento, e variam em função da maturidade e da natureza do crédito concedido. A Luibor no interbancário fechou hoje em 6,8 por cento.

JA – Quando é que o mercado vai começar a sentir os efeitos destas medidas?

JLM – Esperamos que os novos contratos de crédito, sobretudo para operações de investimento possam já acontecer com referência à Luibor. A partir de amanhã (segunda-feira), o BNA vai também passar a publicar a Luibor. A nossa expectativa é de que os bancos comerciais, na relação com os seus clientes, passem então a utilizar a taxa de referência para formarem o juro na contratação de qualquer operação de crédito sobretudo para o investimento ou operações com maturidade superiores a 12 meses.

JA – Como avalia os bancos que operam no mercado angolano?

JLM – Temos um sistema financeiro que se tem mostrado estável, com níveis de capitalização adequados para o actual momento. Ainda assim, o BNA está a tomar um conjunto de medidas de carácter prudencial que vão exigir dos bancos comerciais, eventualmente, algum reforço dos seus capitais próprios, dando então maior segurança  para tomada das várias oportunidades que o mercado vai ditando. Foi aprovado, na generalidade, o novo regime cambial para o sector petrolífero. Os fluxos associados vão obrigar que os bancos comerciais que queiram intervir na intermediação dos fundos gerados por esse sector sejam obrigados a fazer um exercício de adequação dos seus capitais.

JA – Há capacidade suficiente para apoiar os empresários nas suas iniciativas de investimento?

JLM – Isto tem a ver com a captação de recursos que cada uma das instituições vai fazendo e políticas de gestão de risco. Temos ainda algumas limitações na qualidade das garantias que podem ser prestadas ao sistema financeiro. Recentemente, falou-se dos títulos de propriedade que não estão disponíveis e, também, temos a questão da natureza dos recursos que são captados, que são de curto prazo. Mas estamos a assistir que os bancos vão tendo alguma capacidade para continuarem a fazer o crédito, só este ano cresceu 22 por cento. Entendemos, no entanto, que este crédito continue a ser feito com níveis adequados de segurança, para que os depositantes continuem a ter os seus recursos devidamente protegidos junto das instituições financeiras.

JA – Há tempos falou-se em ataque especulativo há moeda nacional. Hoje ainda há este receio?

JLM – Hoje não registamos esse sentido de pressão sobre a moeda nacional. Aconteceu em 2009 e 2010, fruto do cenário da crise internacional (e Angola foi afectada), registou-se uma menor disponibilidade de divisas. Com isso, os agentes económicos sentiram maior dificuldade na obtenção de moeda estrangeira, fazendo pressão sobre a taxa de câmbio. Neste momento, e podemos verificar pelo comportamento da taxa de câmbio, cuja variação ao longo do ano ronda os dois por cento, que a moeda está estável e o BNA continua a oferecer um volume de divisas adequado para que a economia funcione com normalidade.

JA – Até quando o BNA vai continuar com esta capacidade de abastecer o mercado com divisas como tem acontecido?

JLM – Estamos com um nível de reservas que cobre 7,2 meses de importações e apesar de manter-se o princípio de acumulação de reservas, temos condições de continuar a intervir na economia para manter estável o mercado cambial.

 

Fonte: Jornal de Angola

Foto: Angop

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