Angola aumentou a dívida para USD 1441 milhões e investiu menos em Portugal no último ano

Angola era, no final de 2010, dos cinco países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), aquele com a maior fatia da dívida a Portugal, cerca de 60% do total, equivalente a USD 1441 milhões, tendo o aumento anual sido de USD 85 milhões. No conjunto, a dívida dos PALOP a Portugal atingiu USD 2407 milhões em 31 de Dezembro de 2010, o que representa uma subida de 12,9% em relação ao ano anterior, revelou esta segunda-feira, em Lisboa, o Banco de Portugal (BdP) num documento intitulado Evolução das Economias dos PALOP e de Timor Leste. O documento precisa que o crescimento da dívida oficial dos PALOP atingiu, no ano transacto, USD 275 milhões, o incremento mais elevado dos últimos 15 anos.

“Desde 2009, refere o BdP, Angola tem vindo a amortizar a sua dívida directa vincenda de acordo com o estipulado no acordo de reescalonamento assinado em 2004 com as autoridades portuguesas”.

Os dados do BdP foram publicados no mesmo dia em que delegações dos bancos centrais dos países de língua portuguesa participaram, em Lisboa, no seu encontro anual, para discutir temas da agenda da próxima reunião do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, bem como outras matérias ligadas à cooperação.

O XXI Encontro de Lisboa entre as delegações dos bancos centrais dos países de língua portuguesa à Assembleia Anual do FMI e Banco Mundial é organizado pelo Banco de Portugal.

De acordo com o documento Moçambique era o segundo país com o maior valor total de dívida ao Estado português, tendo registado um aumento de USD 90 milhões em 2010, crescimento que resultou da utilização de linhas de crédito concessionais acordadas em 2008 e 2009 para financiamento de projectos de investimento e infra-estruturas no país do Índico. Cabo Verde, o terceiro dos PALOP com maior percentagem de dívida a Portugal, foi o que registou o maior crescimento real, em USD 99 milhões face a 2009 “um novo e significativo aumento”, salienta-se no relatório, o que fez o total da dívida subir para USD 268 milhões.

A Guiné-Bissau não registou “qualquer desembolso ou amortização” da sua dívida oficial, tendo-se observado apenas uma redução de USD 7 milhões devido à apreciação do dólar face ao euro, estando os créditos denominados em moeda europeia.

A dívida oficial de São Tomé e Príncipe aumentou em USD 12 milhões, passando para € 49 milhões. Este incremento ficou-se a dever a “novas utilizações da linha de crédito concessional assinada com Portugal em Fevereiro de 2009, para financiamento de projectos do Programa da Investimento Público santomense”, refere o documento.

Exportações portuguesas para Angola caíram em 2010

As exportações portuguesas para An gola ascenderam, no último ano, a € 1915 milhões, o que traduz, note-se, uma significativa contracção (menos € 243 milhões que em 2009), facto que foi determinante no recuo, em termos nominais, das exportações portuguesas para os PALOP e TimorLeste, as quais atingiram € 2,4 mil milhões em 2010, menos € 243 milhões que no ano anterior, refere o documento, que ressalva, entretanto, que todos os outros destinos registaram aumentos, com destaque para Cabo Verde (mais € 41 milhões) e Moçambique (mais € 30 milhões).

Já do lado das importações verificou-se um movimento inverso, com um crescimento dos produtos oriundos de Angola em € 412 milhões, “como reflexo da subida do valor de importações inscrito na classe ‘Combustíveis Minerais’ (onde está incluído o petróleo”. As importações portuguesas provenientes dos PALOP e Timor-Leste elevaram-se a € 602 milhões em 2010. O saldo das balanças correntes de Portugal com os 5 países mantém-se claramente favorável a Portugal, graças, acima de tudo, às remessas de emigrantes portugueses em Angola – “o volume de remessas líquidas atingiu € 104,4 milhões, uma subida de 54% em relação a 2009”, observa o relatório.

Do total do investimento realizado por Portugal nos PALOP, 72% destinou-se a Angola, o principal destino dos capitais lusos desde 2002. Seguiram-se Moçambique (15% do investimento) e Cabo Verde (10%).

“O investimento directo bruto português em Angola reduziu-se significativamente em 2010, atingindo € 226,7 milhões (cerca de 1/3 do registado em 2009)”, assinala o relatório do BdP. intitulado Evolução das Economias dos PALOP e de Timor Leste.

Onde os angolanos investem em Portugal

Em 2010, o investimento directo angolano em Portugal ascendeu a € 45,2 milhões, um valor que fica muito abaixo do verificado em 2009 (€ 116 milhões). Os angolanos investem sobretudo em Portugal na ‘Intermediação Monetária’ (€ 17,9 milhões) e em ‘Outras Actividades’ (€ 14,9 milhões). O investimento directo do conjunto constituído pelos PALOP e TimorLeste em Portugal apresentou uma redução em 2010, atingindo os € 57,8 milhões (menos 51,5% face a 2009), sendo responsável por apenas 0,2% do total do investimento directo estrangeiro em Portugal.

Numa apreciação global à economia nacional o documento considera que “o aumento das receitas petrolíferas e a execução globalmente positiva do programa de ajustamento macroeconómico apoiado pelo FMI determinaram uma correcção apreciável dos desequilíbrios orçamentais e externos em 2010. Culminaram, em particular, no reforço das reservas cambiais e na redução dos atrasados, ao mesmo tempo que permitiam também a retoma gradual no crescimento económico sem uma aceleração significativa da cadência inflacionária”. Registe-se que o relatório acentua que a redução verificada do crédito líquido ao Estado “libertou recursos que terão contribuído para uma expansão do crédito à economia ainda mais robusta mas provavelmente mais sustentável (26,0% de variação anual, contra 55,4% em 2009) – numa altura em que o crédito mal-parado tendeu a aumentar”.

O documento evidencia ainda que a massa monetária acusou “o menor acréscimo anual dos últimos vinte anos (7,7% face a 2009)” e que, entre as respectivas componentes, foram os depósitos em moeda nacional (sobretudo a prazo) que registaram “aumentos mais expressivos”, o que reflectiu provavelmente “algum reforço da confiança no Kwanza”.

 

 

Luís Faria

Fonte: O Pais

Fotografia: O Pais

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