André Mingas: Uma vida de canções intermináveis

André Mingas
André Mingas

A morte teve recentemente mão pesada para a música angolana. Num gesto profundamente egoísta, os Deuses reclamaram a presença de André Mingas, para mim será sempre o Andrezinho, no paraíso.
O que há a dizer sobre o que o André representou não cabe no espaço dos jornais. Nem sequer cabe o testemunho mais pessoal sobre o amigo de mais de cinco décadas com quem fui falando via Net nos últimos meses acerca do seu derradeiro trabalho e apesar da doença que sobre ele se abatia cruelmente, manifestava o seu amor à música – o seu habitat permanente.
O que faz hoje sentido, a única coisa que é possível enquanto rabisco estas linhas, é tocar um Blues à nossa amizade, que começa na Rua da Índia, Bairro do Cruzeiro, em Luanda, onde os nossos pais, modestos funcionários públicos moravam com as nossas famílias numerosas.
Nesses tempos, muito antes das famosas blue jeans, começou uma amizade que fomos construindo e cultivando com determinação, tantos são os pontos e escolhas comuns entre nós.
As minhas recordações mais fortes remontam a muitos anos, cinquenta talvez, pelo passado dentro, e vão situar-se nessa rua silenciosa, cheia de árvores, jardins luxuriantes e casas baixas. Era uma rua de funcionários públicos, com famílias numerosas, muitos condenados à condição de subalternidade permanente pela lógica do “ Estatuto do Funcionalismo Ultramarino” que nessa altura vigorava.
Lembro-me perfeitamente da ecologia desses lugares: da rua, do largo, dos poucos carros dos vizinhos endinheirados, dos pomares, dos mamoeiros e mangueiras. Chamava-se Rua da Índia. E o bairro tinha um nome que nunca percebi muito bem: Bairro do Cruzeiro. Para mim era um mundo maravilhoso. Chegou a chamar-se “ Vieira Machado” – provavelmente um engenheiro ou político português ligado à então colónia.
Foi ali que conheci os primeiros amigos, os companheiros, os colegas da escola primária, a primeira professora. Também ali assisti à prisão do “ velho” Mingas, pelas suas ideias nacionalistas. Um jeep da PIDE levou-o um dia. Foi nesse ambiente que a minha amizade com a família Mingas começou; amizade que marcou imenso o meu percurso.
Grande mestre da voz e do violão, André Mingas era um extraordinário cantor, músico e compositor, cuja criatividade extrema e forte personalidade marcaram a música angolana desde a independência nacional, sobrevoando de muito alto os seus companheiros. Criou uma música de recorte clássico, sofisticada, inovadora na harmonia, ritmo e melodia, de uma lírica serenidade e de recorte intemporal.
Escreveu temas lindos. E cantou o nosso quotidiano, o amor e louvou a beleza feminina como poucos. A parceria com Manuel Rui, Filipe Zau e Filipe Mukenga é interminável.
Os seus vibrantes concertos e a obra discográfica que nos deixa constituem património musical e cultural dos mais altos deste tempo e desta terra.
Teve um acidente a mil à hora. Quem escreve “Tons de Azul” e “Miles, Mary e Liceu” – temas do tal disco derradeiro que será editado a título póstumo – está anos-luz à frente dos outros.
Nos últimos meses trabalhávamos num texto para o seu último disco; tarefa que desconseguimos…com a sua precoce partida.
Trata-se, antecipo eu, da música angolana do século XXI.
A partida do André mata uma carreira de amplitude imprevisível, um autor que não deixará de surpreender os ouvidos das gerações vindouras. A sua música sobreviverá à dura e implacável prova do tempo.
P.S. Meu querido André: Compreendo que não possas ter esperado mais tempo. Não deu para esperar. Não podias viver muito mais tempo com a vida entre parêntesis. E tu eras (continuas a ser) a afirmação da vida.

 

Jerónimo Belo | Crítico / Divulgador de Jazz

Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

DEIXE UMA RESPOSTA