A vida de quem faz das ruas local de negócio

Muitas jovens deixam as famílias nas províncias para tentarem a vida em Luanda, onde partilham, com mais cinco ou seis, o mesmo quarto, forma de poderem juntar algum do pouco que ganham na venda diária. Na maioria, são mães solteiras e sonham com uma vida que raramente encontram.
Um grupo de quatro raparigas, com menos de 18 anos, sem qualquer experiência de vida, deixa Benguela de carro à procura da sorte, que sonham encontrar em Luanda. Algumas, antes de partirem, juntam documentos que, pensam, lhes vão ser úteis para conseguirem o primeiro emprego.
Na bagagem, além de algumas peças de roupa, essas jovens trazem menos de cinco mil kwanzas. Na grande cidade, que apenas conhecem do que ouviram ou viram na televisão, recorrem a outras para arranjarem lugar onde dormir.
Não raro, abandonam a escola, levadas pela ilusão de irem ao encontro de uma vida melhor do que a terra natal lhes deu.
Adelaide Kawika, de 17 anos, disse, ao Jornal de Angola, que sempre acreditou que era mais fácil ganhar dinheiro em Luanda do que na província onde nasceu.
As jovens de Benguela têm um plano, trabalharem durante três meses e voltarem à terra para, pelo menos durante um mês, estarem com as suas famílias.
Anastácia Marta, 15 anos, é zungueira desde os 12, mesmo que não junte os 400 ou 500 dólares que estipulou para levar para os pais e os irmãos. É a forma que tem de recuperar forças e ânimo, que apenas consegue junto dos seus.

Uma amiga de infância meteu-a na venda de fruta na rua. Quase em surdina, afirmou estar cansada da vida que tem, mas satisfeita por poder ajudar a família.

São Pedro da Barra

No bairro São Pedro da Barra, no município do Sambizanga, vivem muitos dos zumgueiros de Luanda. Vivem em grupos de seis ou sete. São primos e amigos que a solidariedade juntou em casas arrendadas, muitas de um compartimento apenas, feito de blocos de cimento e coberto de chapas. Além dos jovens, de ambos os sexos, também há crianças, com menos de 5 anos. Filhos e sobrinhos. Os de sangue e os que passaram a  ser.
Laurinda Maria e Carolina Dunva moram no Vale do Soroca, no Sambizanga, zona isolada e sem iluminação pública. Para lá chegamos, temos de passar por ruelas e amontoados de lixo.
A casa, onde vivem mais cinco jovens, todas de Benguela, não foi rebocada e o chão é térreo. Tem dois compartimentos separados por cortinas. Um serve de quarto de dormir, mas também de casa de banho e, pelos vistos de cozinha, com um fogareiro, três panelas vazias e uma bacia com loiça. No outro há trouxas de roupa e um colchão de casal.
Com uma vela nas mãos, Carolina monstra como as sete dormem. As que são mães têm prioridade quanto ao colchão. As outras estendem panos no chão para darem descanso aos corpos.

Sobreviver

Porto Pesqueiro, também no município do Sambizanga, é uma zona antiga e de pequenas indústrias ocupadas por novos moradores, pequenos comerciantes, principalmente cidadãos estrangeiros.
Casas construídas desordenadamente e sem grandes espaços entre elas. A falta de dinheiro levou Emília Vale, 20 anos, a ir para ali viver.
“Prefiro manter-me aqui e poder garantir alguma coisa para a minha família”, disse a jovem, com um filho, de 1 ano, ao colo que, alheia à miséria que a rodeia, ainda sabe sorrir enquanto acarinha a mãe.
Emília, que nasceu no Bocoio, vende no centro da cidade, o que lhe permite despachar todas as frutas. Na cabeça ainda tem o lenço que a protege da poeira.
Da rua principal do bairro para a casa de Emília descemos por um pequeno carreiro, atulhado de lixo, com o cuidado que a situação exige, enquanto ela escorregava com naturalidade, como se estivesse num parque de diversão. Quando interrogámos como fazia o percurso no tempo chuvoso, riu-se:
“Já vivemos aqui vai para três anos, estamos habituados”, explica. A casa, onde vive com mais sete pessoas, entre elas um rapaz, tem dois quartos, com espaço para cama de casal, e um pequeno corredor.  Na altura, estavam todos em casa. Cada um dos moradores contava a novidade do dia. Francisco Muteka é o único calado. Limita-se a sorrir. Um dos quartos está-lhe reservado por ser o único rapaz. Elas dormem todas no outro, tal como o bebé de Emília, que tem outro filho em Benguela. O banho é no corredor e baldes ou sacos servem de sanita. O lixo é depositado na lixeira, a poucos metros de casa. As chapas que fazem de telhado não estão seguras, mas não impedem que os corpos cansados da zunga adormeçam rapidamente, que as horas de sono passam a correr e o dia que vai nascer é igual ao anterior, feito a vender, a fugir dos polícias, a procurar ganhar algum dinheiro para fingir que se come e ainda mandar para a família que se deixou na provincia de  Benguela.

Mães solteiras

Parte das vendedoras de rua em Luanda são jovens e mães solteiras. Carolina tem 18 anos e uma filha de 4, de pai desconhecido, que deixou em Benguela. A criança, que ainda não foi registada, vive com os pais dela.
Adelaide, 22 anos, é outra mãe solteira e tem duas filhas em Benguela. Maria Teresa, de 21, tem um filho. Emília tem dois. Nenhuma das crianças está registada.

Arrendamento

Em São Pedro da Barra, as rendas das casas andam entre os dois mil e os 2.500 kwanzas. Os jovens juntam-se e pagam, ao todo, de seis em seis meses, 15 mil.
O jantar é a única refeição que fazem em casa, pois saem para a zunga por volta das 7h00 e só regressam entre as 20h00 e as 21h00. Diariamente, a responsabilidade de comprar os alimentos e de os ­confeccionar pertence apenas a um.  Nas casas em que só há rapazes, há sempre uma vizinha que se encarrega de cozinhar.

Testemunho

Com venda ambulante, afirmam os que a praticam, é possível melhorar a vida, mas só com muita força de vontade e responsabilidade. É o caso de Francisco Muteka.
O jovem, há três anos que se dedica a vender nas ruas de Luanda,  conseguiu construir uma casa em Benguela, num terreno oferecido pelo pai.
“Graças a Deus, consegui”, referiu a rir e a recordar que para isso teve de deixar para trás algumas amizades, incluindo a de pessoas que viajaram com ele de Benguela. Na altura, tinha 16 anos e chegou acompanhado de cinco amigos. Começou por vender pilhas de rádio, com um investimento de dois mil kwanzas, no Roque Santeiro.
Depois, passou para as lanternas, mas foi com a aplicação de unhas plásticas e de gel, negócio a que continua a dedicar-se, que o dinheiro de se ver começou a aparecer.
Com o que ganha, além de ter construído a casa, ajuda na compra de material escolar dos três irmãos que tem em Benguela.
“Sou o mais velho e se não tiver juízo quem perde sou eu”, disse.
Quando ela está doente “fecha” o negócio e vai junto à família para se tratar com os medicamentos da terra.

Cristina da Silva


Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Francisco Bernardo

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