A distinção merecida de Joãozinho Morgado

Percussionista é uma referência incontornável no acompanhamento rítmico do semba
Percussionista é uma referência incontornável no acompanhamento rítmico do semba

Referência incontornável no acompanhamento rítmico do semba e ímpar no seu estilo, João Lourenço Morgado nasceu em Luanda, no Bairro Operário, no dia 7 de Fevereiro de 1947 e começou a marcar, com apenas 10 anos, o compasso rítmico das tumbas. Estamos em 1957, altura em que Joãozinho Morgado seguia a turma do Santo Rosa e o tamborista Lúpi Lumbi Yaya, palmilhando as ruas do Bairro Operário nos períodos de festa e de eufórica movimentação carnavalesca.
Com 14 anos, ajuda a fundar uma pequena formação musical de bairro com Carlos Geovetti (chocalho), Franco (bate-bate), Domingos Infeliz (reco-reco), João da Sparta (caixa), embrião dos Negoleiros do Ritmo, já com Dionísio Rocha, na condição de principal vocalista e compositor.
Em 1964, convidados pelo promotor musical Luís Montez, os Negoleiros do Ritmo, com Nando Cunha (dikanza),  Jajão (viola), Dionísio Rocha (voz), e Joãozinho Morgado (tumbas) gravam o single “Ai Compadre”, em Portugal,   para onde viajaram integrados numa comitiva artística que incluía a cantora e dançarina Alba Clintgon, Mestre Geraldo, quatro bailarinas e uma selecção de marimbeiros de Malange.
Mestre Geraldo, pai do Joãozinho Morgado e figura emblemática da massemba, também designada rebita, foi acordeonista, professor de dança, dinamizador cultural e compositor, estando na origem da formação dos Novatos da Ilha e Feijoeiros do Ngola Kimbanda, grupos referenciais do antigo Carnaval luandense.
Um mês depois da digressão por terras lusas, ocorre uma das mais importantes metamorfoses dos Negoleiros dos Ritmos, ao juntarem-se a Joãozinho Morgado e Dionísio Rocha, os instrumentistas Almerindo Cruz (viola ritmo), Carlitos Vieira Dias (guitarra ritmo), Massano Júnior (caixa e bongós), Mário Fernandes (guitarra solo) e Zé Fininho (dikanza).
O avô materno de Joãozinho Morgado, João diá Nguma, tocava tambores, e a mãe, Antónia João Martins (Antonica diá Geraldo), tocava igualmente tambores nas sessões de adivinhação e calundús, uma genealogia de percussionistas que exerceu em Joãozinho Morgado uma forte influência na formação da sua personalidade cultural e gosto pelas coisas musicais da terra.
Joãozinho Morgado permaneceu nos Negoleiros do Ritmo até 1974, tendo participado na gravação dos principais clássicos do grupo: “Mukonda diá Lemba”, “Riquita” e “Minha Cidade”, canções interpretadas por Dionísio Rocha.

Convidado por Carlitos Vieira Dias, fez parte da primeira formação dos Merengues, grupo afecto à Companhia de Discos de Angola (CDA), de Sebastião Coelho e Fernando Morais, com Carlitos Vieira Dias (baixo), também accionista da C.D.A., Zé Keno (viola ritmo), Gregório Mulato (bongós), Vate Costa (dikanza) e Zeca Tiryrene (viola ritmo). Na fase de maior qualidade produtiva dos Merengues, 1975-1977, Joãozinho Morgado participou na gravação das principais referências discográficas da Música Popular Angolana. Julgamos merecida e, inequivocamente revolucionária, a sua distinção com o Prémio Nacional de Cultura e Artes.


Fonte: Jornal de Angola

Fotografia: Jornal de Angola

DEIXE UMA RESPOSTA