“Merengue Rebita” de Paulino Pinheiro

Paulino Pinheiro chegou a Lu­anda, com apenas cinco anos, no dia 31 de Dezembro de 1952. Nessa altura o conjunto Ngola Ritmos tinha 12 anos de existência, e eclodia, em plena época colonial, o processo de consolidação da Música Popular Angolana. Nesta altura, começavam a soprar os primeiros ventos independentistas, e germinava a vontade de afirmação nacionalista de muitos jovens angolanos.
Paulino Dombele Pinheiro, filho de Bernardo Dombele e de Maria Lombe, nasceu no dia 20 de Julho de 1952, no Município do Bembe, Província do Uíge, e contou-nos as circunstâncias do seu primeiro contacto com a grande cidade: “conheci Luanda através do meu irmão que trabalhava nos ‘Carvalhos Limitada’, uma empresa de autocarros que fazia viagens de longo curso. Logo depois, fui morar no antigo Bairro Invicta, situado na zona do Kinaxixe, e, com o tempo, acabei por ficar contagiado pela forte musicalidade luandense.”
As frequentes mudanças de residência, levaram Paulino Pinheiro ao Bairro Rangel, onde viveu com a irmã, até Fevereiro de 1958, uma casa cujo senhorio era o famoso comerciante “Chico Burro”. Depois, já no Morro da Maianga, Paulino Pinheiro viveu numa casa coberta de “luandos”, que mais tarde foram substituídos por fragmentos de chapa, um refúgio construído com paredes de uma amálgama de barro e bordão. Esta forma de vida, com os seus percalços, simboliza os parcos recursos e a forma indigente como vivia a sua família.
Em 1960, Paulino Pinheiro assistiu, nos arredores da Igreja do Carmo, a um concerto do conjunto de música moderna, os “Jovens”, constituído por Mário Rui, Ana Paula e Mário Bento, facto que mudou o rumo da sua vida. Nesta altura, influenciado pelo concerto, decidiu enveredar, definitivamente, para o universo da música, e foi ainda nesse ano que conheceu cantores consagrados da Música Popular Angolana: Mário Gama, Tino Catela, Cirineu Bastos, Vum-Vum, e o Duo Ouro Negro, foram figuras com as quais Paulino Pinheiro contraiu uma frutífera amizade.

A primeira formação

Paulino Pinheiro foi um dos fundadores dos “Jovens do Catambor”, como viola solo, com António Canhoto (viola ritmo e baixo), Mano Pequena (tambores), Ti Pedro (dikanza) e Mano Chico (vocal). Embora seja legítimo considerar a importância dos “Jovens do Catambor”, pelo simbolismo artístico no início da carreira de Paulino Pinheiro, a verdade é que o grupo teve vida efémera, tendo interrompido as suas apresentações, na sequência da eclosão da revolta do 4 de Fevereiro de 1961, o marco histórico do início da luta armada de libertação nacional, contra a colonização portuguesa. Convidados para diversas actuações e participações em concursos musicais, “Os Jovens do Catambor” retornaram à música, em Dezembro do mesmo ano, sem o impacto que caracterizava os primórdios da sua formação. Com o fim dos “Jovens do Catambor”, Paulino Pinheiro opta por uma carreira a solo, e grava o seu primeiro “single”, em vinil de dupla face, com as canções, “Belita Mana” (1968), e “Dominó”, acompanhado pelo conjunto Ases do Penda.

O retorno ao Rangel

O retorno ao Bairro Rangel, na Rua dos Estudantes, onde Paulino Pinheiro passou a viver, pela segunda vez, em 1973, orientou a sua vida artística e o entendimento dos meandros da música popular. No Rangel, fundou os “Impérios Negros”, o seu segundo grupo, com Nando Figueira, Man Quintas, Zé Topa e João Leite. Paulino Pinheiro participou, integrado nos “Impérios Negros”, no concurso dos “Kotas”, nos salões da Rádio Onda, Maria Escrequenha, e Desportivo de São Paulo. Os “Impérios Negros acabaram por ser classificados, desfavoravelmente, no concurso do “Melhor Grupo do Mês”, a favor do conjunto “Caladinhos do Ritmo” do maestro Augusto Fodó.
Em 1968, Paulino Pinheiro esteve próximo dos fundadores do conjunto “Águias-Reais”, maioritariamente formado por jovens estudantes da Casa Pia de Angola, onde se destacaram nomes como Mané Quental, Mário António, Fausto Papetti, Pedro Romeu e Gregório Mulato.
Depois de ter lido uma notícia no jornal “Tribuna dos Musseques”, que anunciava um concurso musical de promoção de novos valores, no salão do Braguês, situado no bairro Sambizanga, Paulino Pinheiro concorreu, com o pseudónimo de Bill Negro, tendo sido acompanhado pelo conjunto “Makamba”. Daí ficou conhecido, por muito pouco tempo, por Bill Negro, um nome retirado da banda desenhada, género que o cantor lia, com acentuada assiduidade. Aconselhado pelo cantor António Pinto da Cruz (Luís Visconde), o cantor mudou, definitivamente, o pseudónimo Bill Negro, para Paulino Pinheiro.

Simbolismo das tertúlias

Nas tertúlias conheceu Duia, o célebre guitarrista dos Gingas, Elias dia Kimuezo, o rei da música angolana e vocalista, na altura, dos “Ilundos”, Dominguinho, vocal e viola solo do “Ndimba Ngola”, Caculo Kalunga, responsável pela sonoridade da “puita” dos Gingas, Calabeto, vocalista do Musangola, Luís Visconde, intérprete do sucesso “Chauffeur de Praça”, e os cantores Artur Adriano e Tony Caetano.
Paulino Pinheiro integra-se então numa classe de artistas que granjeavam uma acentuada notoriedade no universo da Música Popular Angolana, refinando os contornos da sua estética musical, altura em que compreende a importância de interpretar as suas canções, em kikongo, lingala, e kimbundo.A canção “Merengue Rebita”, um dos seus grandes sucessos, data desta época, um clássico gravado com o conjunto “Os kiezos”. Na sequência surge o single “Pachanga da Juventude” gravado com o acompanhamento dos emblemáticos “Jovens do Prenda”.

A canção política

Com a entrada dos movimentos de libertação nacional em Luanda, e o advento da independência, muitos cantores e compositores começaram a revelar as suas opções políticas. Foi nesta altura que o músico e compositor Paulino Pinheiro, motivado pela emoção da liberdade, grava, em 1974, a canção “Oh MPLA nkangu a ngola”, pela Valentim de Carvalho, um sucesso que o consagra, pela simplicidade e impacto mobilizador da letra, no universo da canção política.

Fonte: Jornal de Angola

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