Meio século de uma cidade hospitaleira

O desenvolvimento multifacetado alcançado pela ex-Henrique de Carvalho, hoje cidade de Saurimo, em nove anos de paz efectiva, confirma os esforços do governo provincial na elevação da dignidade dos munícipes. O nível de higiene e arrumação ressalta das comparações feitas com outras urbes do país e honra a impressão com rótulo de profecia expressa pelo Presidente Agostinho Neto ao considerar “a cidade pequena, mas aconchegante e com futuro”, numa das visitas que aqui realizou em 1960.
Saurimo completa hoje 55 anos de existência, desde a sua ascensão à categoria de cidade, publicada em Diploma Legislativo nº 2757, de 28 de Maio de 1956. A então povoação administrada pelo soba Saulimbo, posteriormente baptizada de vila Henrique de Carvalho, em homenagem ao português que a fundou, “não teve um desenvolvimento notável nos anos subsequentes”.
A história reza que um pacto de protecção do antigo império Lunda contra a invasão belga, assinado pelas autoridades coloniais portuguesas com as da região, anulou a resistência dos nativos, após a ocupação por forças militares do exército português, comandadas pelo major Henrique Augusto Dias de Carvalho, fundador da cidade situada no centro leste do país.
O interesse pela exploração do diamante mutilou apostas atinentes ao seu desenvolvimento, mas atraiu a atenção de comerciantes que, na busca de conforto, investiram na construção de ruas, edifícios para morar e no relançamento do comércio em lojas e similares.

Nova imagem

A inovação da imagem arquitectónica e o aumento e melhoria da oferta em bens e serviços essenciais despontam dos esforços para o desenvolvimento, marcado por vias asfaltadas, sinalização de ruas e pelo fornecimento permanente de energia eléctrica a partir da barragem do rio Chicapa.
Abarca ainda a construção de dezenas de escolas para milhares de alunos, do primeiro nível ao Ensino Superior, outros tantos hospitais, postos e centros de saúde especializados, contenção de ravinas através da execução, em betão armado, de valas para condução de água, jardins, rotundas e um parque infantil.
Por iniciativa privada, a rede hoteleira ganha corpo. O hotel Solar Luboia, Galito (em conclusão), Katequeiro, pensões e centros turísticos Aldeia Princesinha, Tchisseke e Citende ca Zango são exemplos que despertam a concorrência requerida para elevar a prestação de serviço.
A higiene e ordem são evidentes graças à recolha/tratamento regular de lixo por operadoras privadas e da assimilação das normas de conduta urbana que tornaram a cidade num exemplo de referência obrigatória na região e país.

Cidade  diamante

Atingir o brilho do diamante consta das ambições da operadora Ponto Verde afecta ao grupo Sete Cunhas, contratada pelo governo e cujo empenho na contenção de ravinas, suavizou o perigo que “tirava sono” às famílias, sobretudo nos bairros periféricos. “Se Henrique de Carvalho fosse vivo e visitasse hoje a cidade que fundou, estaria muito orgulhoso com o que se fez em nove anos de paz”, referiu uma anciã na língua Tchokwe, ao exprimir a sua satisfação pelo trabalho do executivo.
Pinturas de lancis, árvores, fachadas frontais de edifícios, decorações luminosas, montagens de slogans e de uma tribuna, realização de palestras, espectáculos culturais e outras iniciativas dominaram a fase de preparação para uma comemoração com pompa e circunstância.

Novos empreendimentos

Constam das inaugurações feitas, no âmbito do programa festivo, um edifício dos serviços de Correios e Telecomunicações, na zona nobre da cidade, uma escola no bairro Catembe, duas casas em Nanguanza, fontanário na comunidade do Luari, posto de Saúde e jango comunitário no bairro Itengo, todos nas periferias.
O administrador municipal Gregório Miasso assinala que o crescimento ordenado da cidade pressupõe a expansão de serviços como escolas, postos médicos e saneamento básico, para cobrir a procura no seio dos cerca de 90 mil habitantes.
Este esforço de aproximação dos serviços às populações dá primazia às situadas em zonas de risco. Fora da urbe, a administração tem em carteira programas de construção de duas escolas com seis salas cada, igual número de postos de saúde nas aldeias de Kaiaza e Kazari. A empreitada inscreve trabalhos de arruamento no bairro
Terra-Nova, conclusão de uma escola no Luavuri e aquisição de tractores para aumentar o desempenho das comunidades locais no domínio da agricultura.
Consciente da euforia em ambientes de festa, Miasso apela à moderação no consumo de bebidas alcoólicas e no comportamento individual ou colectivo, pautando-se pelo respeito pelos bens públicos que dignificam a nossa cidade, “para que a alegria não se transforme em tristeza”.  De vários sinais notáveis no ­desenvolvimento de Saurimo, a autoridade tradicional Lunda Tchokwe Mwatxissengue Watembo elegeu o “aumento no número de escolas, dentro da cidade e periferias, recuperação de estradas e de ruas, em bairros que nunca foram asfaltados”. Desclassifica todas as pessoas “que de forma maliciosa alegam nada ter sido feito pelo governo, desde que alcançámos a paz, por ‘não saberem o que dizem’”.
Recorda que, no passado, a ignorância “levava as pessoas a considerarem de pássaro qualquer coisa que passasse no ar, mas a realidade hoje anulou a confusão, para não falarmos de outras coisas que, apesar de serem realidade, despertam admiração no nosso íntimo”.
Para ele, os progressos obtidos para a cidade ostentar ruas “em boas condições, limpas e edifícios bem pintados, atestam a atenção do governo para dignificar a população”.
Perante isto, a autoridade tradicional convida ao regresso à procedência, de “todo o cidadão angolano que, ido da diáspora, desembarque no país para incitar à confusão”.

Entre as melhores

Pedro Mwatxondji é coordenador do bairro Luavuri e considera que os progressos notáveis na cidade de Saurimo honram a impressão esboçada pelo Presidente da República Agostinho Neto ao sublinhar que Saurimo “era pequeno mas aconchegante e com futuro”.
A experiência do ancião de 82 anos provou que “os sinais de desenvolvimento de uma cidade passam pela disponibilidade de água potável, energia eléctrica, escolas, hospitais, ruas asfaltadas e outros serviços”. O exímio bailarino de Carnaval, que no passado conquistou três títulos de forma consecutiva, “glórias que todos esqueceram, porque já sou velho”, profetiza que “Saurimo chegará mais distante do que se pensa, acreditem os que quiserem”.
Considera que as condições disponíveis de acesso ao ensino “desde que alcançámos a paz” facilitam a formação dos filhos, tutelados por qualquer pai ou mãe, e só se queixa quem não quer aproveitar “. Dos serviços disponíveis à população aponta “a abundância de água, como um bem que veio para todos”.
Lalá Nicó, 41 anos, é uma cabo-verdiana crescida em Saurimo, onde concluiu o curso básico de enfermagem. Enfermeira há mais de 15 anos, considera “esta terra abençoada por Deus”, pelas oportunidades que permitem “aos nossos filhos aprenderem várias profissões”.
João Miguel diz “não ter suporte para comparar a realidade vivida hoje com a do passado”. Aponta a disponibilidade de transportes públicos urbanos, intermunicipais e provinciais, “coisa que víamos apenas na cidade de Luanda”. Há quatro anos a viver na cidade de Saurimo, depois de 20 na província de Luanda, considera que, por todas as condições que possui, ela “está entre as melhores do país”.

 

 

 

Fonte: Jornal de Angola

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