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Instabilidade levou à expansão desordenada de Luanda
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Instabilidade levou à expansão desordenada de Luanda

A instabilidade que o país viveu obrigou grande número de cidadãos a procurar lugares mais seguros nas zonas urbanas. E o Governo da Província de Luanda teve de adaptar a cidade capital à nova realidade socioeconómica. Como muitas outras capitais do mundo estas são as principais razões da expansão desordenada da cidade capital.
Luanda tinha em 1975 cerca de meio milhão de habitantes. A cidade conta hoje com cerca de seis milhões, um terço da população de Angola. Toda a gente procura um canto para viver em função das suas capacidades financeiras.
Luís Paulino Cassange, 68 anos, é o exemplo do êxodo populacional causado pela guerra. Em busca de tranquilidade deixou em 1993 tudo na terra natal, Kuito, e instalou-se no Cacuaco, no bairro das Salinas.
A reconstrução que Luanda regista nos últimos anos obrigou o velho Cassange a mudar de área de residência. Abandonou a única forma de sobrevivência que tinha, a extracção de sal. Paulino Cassange vive agora em Viana, no bairro Zango III. Fomos encontrá-lo com três bidões num carro de mão, à procura de água.
Cassange conta que a transferência do Cacuaco para Viana se deveu ao facto da sua casa de adobe ter sido demolida pelas autoridades. Em troca recebeu uma casa melhor, com três quartos, sala, cozinha e quarto de banho e um vasto quintal.
A nova casa, feita pela construtora Odebrecht, tem instalação eléctrica e canalização de água. Mas tanto um como outro bem tardam a chegar, uma situação que, nas palavras de Cassange, complica a vida dos moradores do Zango III. Os moradores já levaram esta preocupação ao coordenador do bairro, mas a resposta tarda a chegar.
Para o velho Cassange, a medida do Governo Provincial de Luanda de tirar as pessoas de zonas sem as mínimas condições de habitabilidade “é bem vinda”, mas lamenta o facto de ter ficado sem ocupação, pois “fica caro sair do Zango até ao Cacuaco para o trabalho” nas salinas. Enquanto isso, Paulino Cas sange remedeia com pequenos biscates, que “nem sempre dão para comprar o pão”.

infra-estruturas sociais

Isabel Miguel, a viver no Zango III há oito meses, disse que a principal preocupação dos moradores é a falta de infra-estruturas sociais, embora reconheça que as casas que receberam têm melhores condições que as anteriores, onde faltava tudo.
Mãe de três filhos, Isabel Miguel não sabe o que fazer com a primeira filha, Rosa Bento Matias, que estudava a 1ª classe no bairro do Golfe. Agora torna-se difícil continuar a estudar porque é impossível fazer o trajecto Golfe-Zango de candongueiro todos os dias. O pai também deixou de trabalhar por causa da distância que o separa do serviço, na vila da Sonangol, junto ao bairro Camama.
Outra moradora do Zango III é Teresa Neves. Há cerca de um ano deixou a localidade das Salinas, no Cacuaco. Teresa diz que é complicado viver num lugar sem água e onde falta quase tudo, escolas, postos médicos, esquadras policiais, mercados e água.
No entanto, aquela área tem rede de água canalizada. Teresa estranha que as casas desabitadas, no outro quarteirão, têm água e a dela não. “Temos de ir buscar água muito distante. Estou grávida e quase abortava porque tenho que andar quatro a cinco quilómetros à procura de água”, lamenta, queixando-se de dores do peito devido ao peso que transporta diariamente.
Para a pequena Rosa Bento Matias, oito anos, tudo pode faltar no Zango III menos a escola. Estudava a primeira classe no bairro do Golfe e depois da mudança nunca mais viu os seus colegas.
Tem saudades da escola e deixa um pedido às autoridades: “Quero uma escola para mim e as minhas vizinhas”.

Vantagens da expansão

Augusto Ngunza Máquina, encarregado da Odebrecht há cinco anos, considera que a expansão da cidade capital trouxe muitas vantagens. Uma delas – afirma o jovem de fato macaco e um “walkie talk” na mão – é o facto de muita gente ter encontrado emprego, como é o seu caso. Augusto Máquina tem à sua responsabilidade um projecto de construção de cerca de três mil casas, no Zango. Com ele estão cerca de seiscentos trabalhadores, 70 por cento dos quais são jovens. Nestas construções – sublinha – foram os factores que visam dar melhores condições de habitabilidade às pessoas foram tidos em conta.

Sanzala é um paraíso

Delfina Luís, 50 anos, quarenta dos quais vividos no Zango, diz que testemunhou o surgimento do extenso bairro do Zango com mágoa. Tudo porque ela e mais trinta famílias ficaram sem as suas lavras e não receberam casas, continuando até agora a viver em cabanas, cercadas de habitações condignas.
Para Delfina e vizinhos, o grande problema é quando chove. As cabanas ficam todas molhadas e toda a extensão do bairro “Terra Nova” fica cheia de lagoas durante vários dias.
Uma situação que resulta em doenças. Mas se Delfina está triste, Janeta Mafuta considera o bairro da Sanzala, onde vive, o “paraíso” da sua família.
Todos os sete membros da família abandonaram o município do Quimbele, na província do Uíge, e cansados de fugir da guerra, fixaram-se em Luanda.
A residir no bairro da Sanzala há cerca de 19 anos, sentada na varanda da sua residência, ao lado de uma pequena barraca com produtos alimentares, Janeta Mafuta diz que o crescimento de Luanda era inevitável. “Era o sítio mais seguro para se viver”, diz. “A adaptação não foi fácil”, acrescenta. Mafuta teve de deixar de ser camponesa e passar a vendedora. “Não foi nada fácil”, confessa.
Hoje, como sentiu quando chegou a Luanda, em que as dificuldades eram muitas, pensa que o regresso à terra natal seria também carregado de mais dificuldades. Por isso, a solução é ficar para sempre nesta Luanda extensa que cresceu desmesuradamente diante dos seus olhos.
Com os seus contrastes, as suas alegrias e tristezas, e a vontade de crescer melhor. Mas de quando em vez vai à sua terra de origem visitar os seus familiares e amigos de infância. Os que ainda lhe restam.

Fonte: Jornal de Angola

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