Forte chuva faz vítimas nos bairros da Boavista

Três mortos e vários bairros inundados é o balanço provisório das consequências das fortes chuvas que caíram ontem sobre Luanda, das 4h30 às 9h00.

Foram pouco mais de quatro horas de chuvas intensas que deixaram casas inundadas, ruas alagadas e intransitáveis e numerosas famílias desabrigadas e sem os principais haveres.
Os municípios do Cazenga, Sambizanga, Rangel e parte das Ingombotas foram as zonas mais afectadas. Na Boavista o cenário ontem era desolador. Três crianças tinham morrido e 11 carros estavam soterrados na avenida Kima Kienda.
José Camacho, coordenador da comissão de moradores da Boavista, afirmou que além das mortes e das viaturas soterradas, as inundações tinham atingido várias casas construídas junto do muro da Sonils, algumas das quais não resistiram e desabaram.
Na altura em que falava para a imprensa, José Camacho esclareceu que prosseguiam os trabalhos de recolha de terra na via principal para depois ser feito um balanço definitivo dos estragos provocados pelas chuvas naquele problemático bairro de Luanda, onde várias pessoas construíram à revelia das autoridades em zonas de risco.
“Sabemos que algumas casas desabaram e alguns carros dos moradores e de pessoas que estavam de passagem ficaram soterrados, mas a ENCIB está no terreno a trabalhar e algumas viaturas já estão a ser retiradas”, precisou.

Camacho alertou ainda para o perigo que constituía para os moradores do bairro o buraco feito pela Empresa Nacional de Electricidade debaixo da ponte da linha-férrea.

Construção em zonas de risco

A administradora municipal da Ingombota, Suzana de Melo, que se deslocou ao local às primeiras horas da manhã, lamentou mais este infortúnio provocado pela natureza, prometendo trabalhar no sentido de fazer a limpeza da via e também arregimentar meios para conter as inundações que deixaram várias casas submersas.
A responsável aproveitou para alertar aos moradores da Boavista que construíram em zonas de risco dos perigos que correm. Pediu a todos que ponderem se vale a pena continuar como estão, correndo o risco da própria vida, ou retirar-se desses locais o mais rápido possível.
Suzana de Melo, que lamentou a morte das duas crianças por desabamento da casa precária em que habitavam e outra por electrocussão, reiterou a necessidade das pessoas acatarem os apelos das autoridades para não construírem em zonas de risco.
A tragédia da Boavista, frisou, não tinha acontecido se as pessoas acatassem os conselhos das autoridades.
De acordo com a administradora municipal das Ingombota, as casas que desabaram “são construções novas, muitas delas erguidas em áreas de bastante perigo e são pessoas que já foram desalojadas dessas áreas que continuam a ocupá-las”.

Bairro Popular

No bairro Popular, no prolongamento da rua da Mavinga, o cenário, ontem, também era bastante desolador. As chuvas não deram tréguas aos moradores. A vala de drenagem, completamente obstruída com o lixo atirado pelas próprias populações, impediu que as águas tomassem o seu curso normal.
Várias casas ficaram inundadas e famílias inteiras perderam os principais haveres.
António Dinis disse que ficou sem a mobília nova que comprou depois de já ter perdido outra nas últimas enxurradas de Março e não sabe agora o que fazer da vida.
Dinis admitiu que grande parte da obstrução da vala de drenagem se deve aos moradores que, com hábitos pouco urbanos, atiram todo tipo de objectos e dejectos para a vala. “E as consequências só podiam ser estas”, disse indignado, enquanto retirava com um balde a água que tinha inundado completamente a casa.
A conhecida Estrada Nova, que dá acesso ao bairro Palanca e que de nova não tem nada, estava ontem de manhã completamente inundada e vários carros estavam atolados na água lamacenta.
Ainda não há duas semanas que o arquitecto Benga Pedro alertou para a necessidade de se criarem equipas para a fiscalização e manutenção periódica das valas de drenagem, evitando que se transformem em depósitos de lixo.
Benga Pedro afirmou que a acção era imprescindível para a conservação das valas de drenagem que beneficiam de obras.
Muitas valas de drenagem reabilitadas e construídas, referiu, estão a ser mal usadas pela população, que as transformam em depósito de lixo, inviabilizando o escoamento das águas residuais.
O uso inadequado dessas infra-estruturas, lembrou o arquitecto, provoca-lhes a degradação precoce, podendo provocar inundações no tempo chuvoso.
Na província de Luanda, encontram-se em recuperação as valas do Suroca, São Pedro, Senado da Câmara, do Cariango e outras de pequena dimensão, abertas em algumas áreas da periferia.

Rangel e Cazenga

Jovens e crianças com baldes na mão para retirar água dos quintais e casas inundadas eram o quadro de ontem nos bairros Cazenga, Rangel e Sambizanga.
Os estragos causados pelas fortes chuvas geraram prejuízos enormes entre os habitantes. Há quem tenha perdido a mobília, levada pelas águas das chuvas, e também dinheiro.
Adão Manuel, morador do bairro Rangel, era ontem um homem desolado. Sem grandes posses, disse que perdeu a pouca mobília que tinha em casa e cinco mil kwanzas que tinha guardado no colchão. “Não era muita coisa, mas era a única coisa que tinha”, disse com o semblante triste.
A situação na zona do Triângulo dos Congolenses também era ontem preocupante. Só os mais corajosos se arriscavam a transitar de carro no prolongamento da Avenida Brasil para o Cazenga. As obras paralisadas depois da passagem de nível, na zona do Cariango, transformaram-se em autênticas piscinas a céu aberto. As águas das chuvas deixaram submersas as bombas de combustível do Embondeiro do Cazenga.
Até a altura em que os repórteres do Jornal de Angola percorriam a cidade não havia o registo de mais vítimas mortais, além das três crianças da Boavista, mas os prejuízos devem ser elevados, embora as chuvas tenham caído no domingo, dia de repouso, período em que o movimento de pessoas e bens é menor em relação aos dias normais de trabalho. As chuvas que cairam sobre Luanda em Março último fizeram 12 vítimas mortais e elevados prejuízos materiais.

Fonte: Jornal de Angola

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