A magnitude pedagógica do Jardim do Livro Infantil

O exercício da leitura, entendido como um processo de reconstituição do mundo e da mancha gráfica da palavra, proporciona à criança uma crescente diminuição da possibilidade de ocorrência do erro ortográfico, dilatando, consequentemente, os limites do seu imaginário e a plasticidade da sua sensibilidade criativa.
Entendida como material de suma importância pedagógica, a literatura infantil, no âmbito das narrativas de autor e da ficção popular, deve ser sempre encarada como alternativa ou contraponto à oferta aliciante do actual mundo iconográfico, que vem sendo absorvido pelas crianças, com o advento das modernas tecnologias da esfera da comunicação.
Realizado pelo Ministério da Cultura, através do INIC (Instituto Nacional das Indústrias Culturais), o Jardim do Livro Infantil, que encerrou, ontem, é uma instância que completa o ciclo de comunicação literária e cumpre o papel de divulgação e promoção de autores e da literatura infanto-juvenil.
Apesar dos inegáveis avanços da alta tecnologia no campo das comunicações e ao contrário dos profetas que advogam o fim do livro, onde a escrita alfabética era substituída por uma cultura de sinais, o livro ainda continua a ser a melhor ferramenta de trabalho, de acesso à cultura, e o companheiro ideal em todos os momentos.
O livro, manuseado desde tenra idade, pode constituir um instrumento útil para a coesão cultural, sobretudo nesta fase em que assistimos a um crescente movimento editorial, que dá sinais de qualidade concorrencial e consequente afirmação internacional só comparável ao passado glorioso das edições da União dos Escritores Angolanos.

Promoção da leitura pública

A promoção da leitura nas bibliotecas escolares, através de estratégias de incentivo à cultura da leitura, deve ser um imperativo do sistema de ensino, incentivando a criação de programas específicos nas escolas. Daí que seja importante estimular e apoiar a criação de projectos comunitários voltados para o estímulo e para consolidação do hábito de ler.
A crescente revalorização do livro e da leitura passa pela introdução de inovações nos currículos de formação dos docentes, permitindo uma alteração, sistematizada, dos métodos didácticos no tratamento das questões relativas ao livro, à leitura, à escrita e à história literária.
Neste processo, as escolas devem desenvolver programas criativos de aprendizagem, actualização e aperfeiçoamento dos professores, incluindo bibliotecários escolares, relacionados com a natureza e desenvolvimento dos processos de leitura e escrita para crianças e jovens.
As bibliotecas devem constituir um espaço de frequência habitual das crianças e de adolescentes, em idade escolar, e de fácil acesso às diferentes manifestações da língua e da informação, num processo em que o sistema nacional da rede de bibliotecas públicas, se alarga aos distintos níveis da administração territorial.

Política do livro

A Política Nacional do Livro e da Leitura Pública “tem em vista a mobilização de recursos e a articulação de experiências e esforços do Governo e da Sociedade Civil de forma a estabelecer prioridades, associar recursos, investir em programas que favoreçam a expansão do livro e da leitura pública, estruturar o mercado editorial e livreiro e fomentar as actividades comerciais e industriais relacionados com o livro, levando a que estes sejam acompanhados pelos avanços universais no domínio do saber”.
Com a recente aprovação da Política do Livro e da Promoção da Leitura Pública, está criado um dispositivo legal abrangente, nos seus mais nobres contornos estruturais, com claros objectivos. Este documento vai possibilitar que o conhecimento científico e literário se alargue a toda população, invertendo o quadro actual de difícil acesso e custo do livro.

Jardim do livro infantil

Criado em 1979, interrompido durante dez anos e retomado em 2007, o Jardim do livro Infantil, que este ano decorreu de 23 a 26 deste mês, no Parque da Independência, em Luanda, teve na agenda uma aliciante programação, como a exposição e venda de obras de literatura infanto-juvenil, cerca de dois mil exemplares vendidos, um conjunto de actividades de carácter cultural e educativo, lançamento de livros, tenda das letras – um espaço de interacção dos escritores com o público – seminários de leitura pública, escrita criativa, ilustração de livros para crianças, concertos e visitas guiadas.
Das grandes inovações deste ano, salientaram-se o “Jango da Palavra”, espaço de diálogo das crianças com os mais velhos, que contou com a presença de Mendes Miranda, Manuel António Luís, Ana Karinhas, do mais velho João Francisco Miguel, Maria A. Gonçalves Henriques, Catarina V. da Costa (Mamã Kuiba) e Monteiro Katungo, figuras da cena cultural e gastronómica luandense, que falaram da importância dos valores morais e cívicos do passado. Por sua vez Amadeu Amorim e Rui Mingas, relataram as experiências no “Ngola Rimos” e sublinharam a importância da canção no processo de luta anti-colonial.
O estaque vai, também, para o lançamento da gazeta “O jardim”, uma publicação de periodicidade trimestral, dentro do projecto “ler é saber, ler é crescer”, o regresso da “Colecção piô-piô”, que aparece no mercado com uma nova mancha gráfica, em edições de bolso e de baixo custo, e a publicação da colectânea de textos “Histórias de encantar, livro de ouro da literatura infantil angolana”, que inclui vários autores consagrados.
Outra das grandes novidades foi a ida às províncias dos escritores John Bella, que assinou autógrafos no Uíge, Yola Castro, que esteve no Bengo, António Pompílio, no Moxico, e Marta Santos, a grande atracção na cidade do Bié.
Nesta edição do Jardim do Livro Infantil, houve, ainda, o lançamento dos livros “A raposa e a perdiz”, de Cremilda de Lima, e “O menino de olhos cintilantes”, de Yola Castro.
O Jardim do livro infantil, que este ano decorreu em 16 províncias, é um momento, entre vários, que pode completar o ciclo de comunicação literária, que inclui a promoção e a defesa dos direitos do autor, do editor, do importador, do livreiro, do distribuidor e da crítica literária, instâncias que, na cadeia de promoção da leitura, devem estar articuladas.

Textos em línguas nacionais

Promoção do texto literário em línguas nacionais pode ser uma estratégia didáctica de aprendizagem, pelas crianças, da valorização da cultura da oralidade e de incentivo ao uso de noções básicas da estrutura das línguas nacionais. O processo ia contribuir para a consciencialização e respeito pelos valores literários e culturais veiculados pelas línguas nacionais, motivando as crianças a desenvolverem e aprofundarem as aptidões literárias.

Fonte: Jornal de Angola

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